
MEDELLÍN (COLÔMBIA), 24/05/2026 - O candidato à residência da Colômbia Abelardo de la Espriella pronunciou seu discurso de cierre de campaña neste domingo, em Medellín (Colômbia). EFE/STR
Bogotá — “O maior inimigo do cristianismo é o comunismo. E eu sou o maior inimigo do comunismo.” Quando Abelardo de la Espriella faz declarações como essa em comício, ele não levanta a voz. Fala devagar, quase pausado, como quem tem certeza de que será ouvido. Aos 47 anos, o advogado que se apresenta como “El Tigre” construiu sua campanha presidencial em torno de uma única promessa: acabar com o que chama de narcoterrorismo usando “mão de ferro”.
Neste domingo, 31 de maio, os colombianos vão às urnas. Embora o senador Iván Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, ainda lidere as pesquisas de primeiro turno, as simulações de segundo turno colocam Espriella à frente. Ele representa, para uma parcela crescente do eleitorado, a alternativa mais direta ao cansaço de seis anos de “Paz Total” que não trouxe paz.
Nascido em Barranquilla, Espriella passou um período na Itália antes de decidir retornar. “Deixei uma vida tranquila em Florença”, disse em novembro, “para salvar e reconstruir meu país”. A frase, repetida em suas redes, carrega o tom de missão que marca sua campanha. Casado, pai de quatro filhos e cantor de músicas cristãs, ele mistura a imagem de homem de família devoto com a de líder disposto a confrontar o crime organizado sem mediações.
Sua comunicação é direta e constante. Transmite ao vivo, responde seguidores e transformou o bordão “Firme pela Pátria!” em marca registrada de uma militância que se identifica com a ideia de força. Ultrapassou 1,1 milhão de seguidores no Instagram — mais que o dobro de seu principal rival. Não é um político de partido tradicional. Nunca ocupou cargo eletivo. Apresenta-se como o verdadeiro outsider.
A violência que dá sentido à sua mensagem
A ascensão de Espriella se dá em meio à pior deterioração da segurança colombiana em mais de uma década. Em 2024, o número de vítimas de explosivos aumentou quase 90%. Mais de 100 mil pessoas foram confinadas à força e 260 mil deslocadas internamente. Até novembro de 2025, o país já registrava mais homicídios do que em todo o ano anterior.
O candidato sentiu a violência de perto. Em outubro, um grupo armado interceptou um carro de sua comitiva em uma estrada entre Norte de Santander e Arauca e o incendiou. Em fevereiro, o ELN o declarou “objetivo militar”. Desde então, sua rotina mudou: ele circula com escudos blindados e um aparato de segurança que não existia no início da campanha. O atentado de abril na rodovia Pan-Americana, em Cajibío, que matou pelo menos 21 pessoas, reforçou a sensação de que o Estado perdeu controle sobre partes do território.
Para muitos colombianos, a morte do senador Miguel Uribe Turbay ainda está fresca. A violência política, que muitos acreditavam superada, voltou a ser parte do cotidiano eleitoral.

O presidente colombiano Gustavo Petro (ao centro). EFE/STR
O fracasso da paz que não chegou
Espriella capitaliza o descrédito da estratégia de Petro. A “Paz Total”, que expandiu os diálogos para múltiplos grupos armados, não reduziu a violência. Em várias regiões, facções das Farc e o ELN ampliaram seu controle sobre rotas de narcotráfico e mineração ilegal.
A memória de tentativas anteriores de pacificação alimenta o ceticismo. O acordo de 2016, negociado em Havana, foi rejeitado em plebiscito pela maioria dos colombianos. Mesmo assim, foi implementado. As Farc receberam assentos no Congresso e benefícios de justiça transicional. Para parte da sociedade, o resultado foi interpretado como impunidade que permitiu a reorganização de grupos armados.
É nesse vazio que Espriella se posiciona como herdeiro da linha dura de Álvaro Uribe. Durante os dois mandatos de Uribe (2002-2010), os homicídios caíram 40% e os sequestros, 93%. O candidato defende hoje ofensiva militar contra acampamentos de grupos armados, construção de prisões de máxima segurança, referendo para endurecer penas e, de forma mais controversa, a legalização parcial de capitais de origem ilícita para integrá-los à economia formal.
Entre a defesa e a controvérsia
A trajetória profissional de Espriella é usada por adversários para questioná-lo. Como advogado, representou clientes de alto perfil, incluindo o empresário Alex Saab, apontado como operador financeiro de Nicolás Maduro. Ele responde que cumpriu o papel de defesa e que investigações sobre supostas ligações com paramilitares foram arquivadas por falta de provas.

O candidato presidencial colombiano, Abelardo de la Espriella, discursa na quarta-feira (20), num dos seus últimos grandes comícios de campanha antes das eleições de 31 de maio, na Praça Lourdes, em Bogotá, Colômbia. EFE/Mauricio Dueñas Castañeda
Politicamente, construiu aliança com o Movimento Salvação Nacional e recebeu sinalização de apoio de Uribe em eventual segundo turno. No financiamento, afirma que a campanha é autofinanciada, em parte com recursos da venda de um empreendimento de luxo em Bogotá. “Não tenho outros chefes além de vocês, os verdadeiros patriotas”, disse em novembro diante de 15 mil apoiadores.
O posicionamento internacional
No plano externo, Espriella busca alinhamento explícito com Washington. Em carta aberta a Donald Trump e Marco Rubio, descreveu a Colômbia como uma nação que “se recusa a cair nas garras do comunismo e do narcoterrorismo”. O documento foi divulgado às vésperas de uma reunião entre Trump e Petro e pressionou os Estados Unidos a endurecer a postura contra grupos armados colombianos.
Seu discurso se insere em uma estratégia mais ampla da administração americana de conter a influência de China, Rússia e Irã na América Latina — uma releitura da Doutrina Monroe que prioriza segurança hemisférica e afasta investimentos considerados adversários em portos, infraestrutura e mineração. Nesse tabuleiro, a Colômbia aparece como peça relevante. Espriella apresenta sua candidatura como parte de um movimento regional mais amplo de líderes conservadores que defendem maior cooperação com Washington em temas de segurança.

Uma fotografia mostra um cartaz com Abelardo de la Espriella, candidato à presidência pelo partido Defensores da Pátria, e José Manuel Restrepo, candidato à vice-presidência, na terça-feira em Cali, Colômbia. A campanha para o primeiro turno das eleições presidenciais deste domingo na Colômbia tem sido marcada por uma profunda divisão entre esquerda e direita, mas os principais candidatos compartilham alguns pontos em comum que vão além da política. EFE/Ernesto Guzman Jr.
O que está em disputa
A Colômbia chega às urnas neste domingo dividida entre o esgotamento com uma paz que não entregou segurança e o receio de soluções que, no passado, cobraram preço alto em direitos humanos. Espriella não oferece reconciliação. Oferece ordem.
Seus apoiadores veem nele a única liderança disposta a recuperar o controle do Estado sobre territórios dominados por grupos armados. Seus críticos temem que sua vitória aprofunde a polarização e normalize métodos que já demonstraram limites. O que as pesquisas mostram, no entanto, é que uma parcela relevante do eleitorado está disposta a experimentar novamente a “mão de ferro”.
A Colômbia não é um caso isolado. Em diferentes países da região, lideranças de direita com discurso centrado em segurança e autoridade estatal ganharam espaço nos últimos anos. O que se decide neste domingo pode indicar até onde esse movimento avança e quais serão seus impactos dentro e fora das fronteiras latino-americanas.




