Delegados militares chineses chegam à segunda sessão plenária do Congresso Nacional Popular no Grande Salão do Povo, em Pequim, em 8 de março de 2024. Kevin Frayer/Getty Images

Apesar dos ataques conjuntos EUA-Israel que mataram o Líder Supremo Ali Khamenei em fevereiro de 2026 e degradaram significativamente o programa nuclear e de mísseis do Irã, os Estados Unidos não alcançaram a meta de destruição do regime da República Islâmica.

O acordo preliminar anunciado por Donald Trump em 15 de junho, que inclui cessar-fogo de 60 dias, reabertura do Estreito de Ormuz e discussões sobre resolução de análises, representa o reconhecimento prático de que a estratégia de pressão máxima não produziu mudança de regime.

É mais relevante para o cenário global: a China, principal compradora do petróleo iraniano mesmo sob avaliações, mantém e pode ampliar seu acesso energético e influência na região em um cenário de maior estabilidade.

A hidra não morre ao cortar apenas uma das cabeças

A expectativa de que a decapitação da liderança provocaria colapso interno não se confirmou. Fontes como o Brookings Institution registraram que, apesar das perdas no alto escalonamento, o regime iraniano fez a transição de poder e manteve a coesão institucional suficiente para continuar operando e negociar com Washington.

A ausência de uma oposição organizada capaz de capitalizar o momento e a falta de deserções em massa nas forças de segurança foram fatores determinantes. O resultado é que os EUA infligiram danos operacionais graves, mas não alcançaram o objetivo político de remover o regime de Teerã.

O objetivo de enfraquecer a China

Um dos pilares da parceria Irã-China era suficiente para o petróleo. Dados da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China mostram que a China adquiriu cerca de 90% das exportações de petróleo bruto iraniano, muitas vezes com desconto significativo por meio de mecanismos de evasão de avaliações.

Analistas como Youlun Nie, no The Diplomat, e Zineb Riboua, do Hudson Institute, argumentaram que os ataques ao Irã visavam, entre outros objetivos, enfraquecer essa relação energética e o papel do Irã como parceiro estratégico de Pequim no Oriente Médio.

O acordo atual reabre o Estreito de Ormuz e fornece espaço para interrupção das avaliações, permitindo que o comércio energético sino-iraniano se normalize ou até se expanda em condições menos restritivas do que durante o auge do conflito.

Vitórias e derrotas: os limites da estratégia americana

A eliminação de Khamenei e a manipulação de sistemas de mísseis e enriquecimento são conquistas operacionais reais. No entanto, a decisão de avançar para um acordo preliminar que preserva o regime e reabre canais energéticos com a China expõe os limites do poder americano quando confrontado com a resiliência de um sistema autoritário apoiado por parceiros estratégicos.

Para a China, o cenário evita o cenário de caos que os analistas em Pequim descreviam como “cenário de pesadelo” e permite que o regime chinês continue engajado no Irã de forma mais aberta, sem o mesmo nível de risco de avaliações secundárias. O acesso ao petróleo do Golfo, embora possivelmente menos descontado do que no auge das avaliações, permanece viável em um ambiente de maior estabilidade.

O acordo atual não encerra as questões entre Washington e Pequim no Oriente Médio. Ele apenas demonstra que, mesmo após ataques diretos e decapitação da liderança iraniana, os Estados Unidos não conseguiram importar uma mudança de regime nem romper de forma estrutural os laços energéticos e estratégicos que ligam os regimes chinês e iraniano.

Esta é uma derrota que, provavelmente, ocupará espaço nos próximos movimentos estratégicos e ações dos Estados Unidos na região.

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