A polícia paramilitar monta guarda na Praça Tiananmen antes da sessão de encerramento da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês em Pequim, em 10 de março de 2021. Noel Celis/AFP via Getty Images

Imagens de satélite de maio de 2026 confirmam que o Partido Comunista Chinês (PCCh) concluiu, em Bejucal, Cuba, a construção de uma grande arranjo circular de antenas de 32 elementos, maior e mais capaz que qualquer instalação similar cubana documentada anteriormente. 

A poucos meses de distância, relatórios independentes expõem uma rede de 43 domínios e 37 subdomínios que se fazem passar por veículos como The New York Times, The Guardian e The Wall Street Journal para disseminar conteúdo pró-PCCh.

Esses dois fatos não são paralelos isolados. Revelam as duas dimensões complementares de uma mesma estratégia híbrida: o controle narrativo global através de uma sofisticada máquina de influência e a coleta física de inteligência de sinais a partir de uma “cabeça de ponte” a menos de 145 km da Flórida. 

Cuba, historicamente usada pela União Soviética para espionar os Estados Unidos, volta a servir como plataforma avançada pelo herdeiro do espectro comunista: o regime chinês.

A máquina de manipulação de opinião pública

O plano quinquenal chinês mais recente eleva explicitamente o aumento da influência internacional a prioridade estratégica, com o objetivo declarado de contrapor o que Pequim chama de “viés ocidental”. Na prática, isso se traduz em um ecossistema digital que combina simulação de mídia, amplificação automatizada e terceirização para empresas de relações públicas e marketing chinesas.

Relatório da Graphika detalhado pelo Infobae revela que a operação batizada de “Glass Onion” mantém uma rede de sites que copiam design, estrutura e templates de veículos legítimos. Esses domínios hospedam material da mídia estatal chinesa, anúncios e mensagens pró-Partido Comunista. Trinta empresas chinesas de RP e três indivíduos estão diretamente ligados ao conteúdo publicado. 

Em plataformas ocidentais, a operação Spamouflage (também conhecida como Dragonbridge ou Storm 1376) — atribuída ao Ministério da Segurança Pública chinês — amplifica o material por meio de contas falsas ou sequestradas, cada vez mais com auxílio de inteligência artificial generativa.

As táticas guardam semelhança deliberada com a campanha russa “Doppelganger”, que clona sites de mídia na América Latina para distorcer debates, fabricar notícias e interferir em processos eleitorais. 

O PCCh adaptou o modelo: em vez de mera clonagem grosseira, investe em conteúdo reciclado de fontes oficiais, adaptado para públicos ocidentais e validado por aparente cobertura de mídia independente. 

As bases de espionagem em Cuba

Enquanto a máquina narrativa opera em escala global, o PCCh consolida infraestrutura física de inteligência em Cuba. Segundo análise do Center for Strategic and International Studies (CSIS) com imagens comerciais de satélite, é mostrado que a instalação de Bejucal, perto de Havana, finalizou a conversão de uma grade linear antiga para uma Circularly Disposed Antenna Array (CDAA) com 32 antenas dispostas em dois anéis concêntricos. Cabos conectam o campo de antenas ao prédio de controle central. 

Especialistas avaliam que a estrutura já está operacional e é projetada para interceptar transmissões de rádio e geolocalizá-las com precisão em ampla faixa do espectro.

Autoridades americanas reconhecem publicamente que a China opera pelo menos três instalações de inteligência em Cuba; Bejucal é consistentemente identificada como uma delas em relatos, testemunhos congressuais e declarações oficiais. 

Uma segunda site, em El Salao (próximo à área de Guantánamo), avança em ritmo mais lento, mas não foi abandonada, uma estrada de acesso foi recentemente repavimentada.

Essas capacidades reforçam a coleta de sinais de inteligência (SIGINT) voltada para monitorar operações navais e aéreas dos Estados Unidos no Caribe, no Golfo do México e no litoral sudeste americano. Em maio de 2026, uma ordem executiva americana citou explicitamente a hospedagem de “instalações de adversários estrangeiros” como motivo para novas sanções contra o regime cubano.

Duas faces de uma mesma estratégia

Não há, nos relatórios públicos, prova de coordenação tática direta entre a rede Glass Onion/Spamouflage e as bases de Bejucal. A complementaridade, porém, é estrutural. A espionagem de sinais fornece dados brutos sobre prioridades, vulnerabilidades e comunicações americanas que podem informar o refinamento de campanhas de influência. 

Cuba oferece ao PCCh não apenas proximidade geográfica com seu principal rival estratégico, mas também uma plataforma histórica de projeção regional, agora atualizada com ferramentas digitais de manipulação narrativa e pressão diplomática.

A América Latina aparece como terreno particularmente fértil: operações russas já demonstraram a eficácia de clonar mídia local para polarizar sociedades e erodir confiança em instituições. O modelo chinês, mais sofisticado na camada de lavagem via empresas de RP e IA, avança sobre o mesmo espaço. Ao mesmo tempo, a presença física de instalações de inteligência em Cuba amplia a capacidade de coleta que pode, no futuro, retroalimentar operações de influência direcionadas.

O que está em jogo

O resultado é uma ameaça dupla e integrada à integridade do espaço informacional e à segurança nacional dos países ocidentais A máquina de manipulação do PCCh não busca apenas promover uma imagem positiva da China; ela dilui a distinção entre fato e narrativa, simula fontes legítimas e ataca dissidentes, principalmente grupos como o Falun Dafa, com recursos estatais e camadas de opacidade. 

As bases em Cuba, por sua vez, transformam a ilha em posto avançado de coleta contra os Estados Unidos em um momento de renovada atenção americana ao Hemisfério Ocidental.

Para o Brasil e a região, o alerta é concreto. A estratégia do PCCh combina escala industrial, recursos estatais, empresas de fachada e agora infraestrutura física permanente a curta distância do território americano. 

Defender o debate público e a soberania informacional exige padrões rigorosos de evidência, transparência sobre operações de influência estrangeira e cooperação entre democracias que enfrentam o mesmo desafio. Cuba, mais uma vez, tornou-se o palco onde essas duas dimensões do poder híbrido chinês se encontram.

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