Fotografia de arquivo da candidata derechista à Presidência do Peru, Keiko Fujimori. EFE/Paolo Aguilar

Na noite de 7 de junho de 2026, enquanto os peruanos acompanhavam a apuração do segundo turno presidencial, Keiko Fujimori não falou de economia nem de saúde. Falou de destino. “O Peru não decide apenas entre dois nomes. Decide entre dois caminhos. Um caminho é o da desordem, da impunidade e do medo que voltou a tomar conta das ruas e de regiões inteiras do nosso país. O outro é o caminho da autoridade, da lei e da segurança que os peruanos de bem merecem”.

Para quem a ouvia, a frase carregava um peso histórico preciso: era a mesma autoridade que seu pai, Alberto Fujimori, havia imposto contra o Sendero Luminoso há três décadas.

O paralelo não é retórico. É estratégico. Em um país que viveu nove presidentes em pouco mais de dez anos e que viu a criminalidade explodir após o turbulento mandato de Pedro Castillo, Keiko Fujimori transformou a segurança pública no eixo central de sua candidatura, e o fez ancorando-se explicitamente na memória da vitória contra o grupo maoista que, segundo a Comisión de la Verdad y Reconciliación (CVR), foi responsável por 54% das aproximadamente 69 mil mortes do conflito armado interno entre 1980 e 2000.

A guerra que o Peru venceu e o que sobrou dela

O Sendero Luminoso não foi apenas mais um grupo guerrilheiro. Fundado por Abimael Guzmán na Universidade de San Cristóbal de Huamanga, em Ayacucho, o Partido Comunista Peruano-SL iniciou sua “guerra popular prolongada” em maio de 1980 com a queima de urnas em Chuschi. O que se seguiu foi uma das insurgências mais letais da América Latina contemporânea.

A CVR, em seu informe final de 2003, foi contundente: o Sendero cometeu crimes de lesa humanidade em escala sistemática — massacres de camponeses, “julgamentos populares”, destruição de infraestrutura e uma estratégia deliberada de provocar respostas desproporcionais do Estado para radicalizar a população. 

O antropólogo Carlos Iván Degregori, um dos maiores estudiosos do período, descreveu em Qué difícil es ser Dios como o Sendero Luminoso não se limitou a propor uma nova sociedade. Em muitas zonas rurais, o grupo impôs um controle totalitário, no qual o fanatismo ideológico e o uso seletivo do terror substituíram outras formas de autoridade e passaram a regular aspectos cotidianos da vida da população.

A virada ocorreu no governo de Alberto Fujimori. Em setembro de 1992, o Grupo Especial de Inteligência (GEIN) da DINCOTE capturou Guzmán em uma operação de inteligência em Surquillo, Lima. 

Talvez o mais importante tenha sido a decisão de legalizar e armar as rondas campesinas, comitês de autodefesa comunitários que, segundo Degregori, foram decisivos para reverter o controle territorial do Sendero em Ayacucho e regiões vizinhas. O Estado parou de combater sozinho e passou a contar com a população que mais sofria com a violência.

O jornalista Gustavo Gorriti, em Sendero: Historia de la guerra milenaria en el Perú, documentou como essa combinação de inteligência policial de alto nível e mobilização local quebrou a espinha dorsal da organização. 

Não foi uma vitória limpa, o governo Fujimori recorreu a métodos que a própria CVR condenou, incluindo esquadrões da morte e violações sistemáticas de direitos humanos. Mas para amplos setores da população, especialmente nas zonas que mais sangraram, foi a primeira vez em anos que o Estado pareceu capaz de proteger seus cidadãos.

O vácuo que o crime organizado preencheu

Três décadas depois, o Peru enfrenta uma ameaça diferente, mas com raízes familiares. Os remanescentes do Sendero Luminoso não desapareceram. No VRAEM, eles se metamorfosearam em grupos narcoterroristas. Estimativas de órgãos de segurança peruanos e relatórios internacionais apontam entre 250 e 300 membros remanescentes na região, dos quais dezenas de dezenas mantêm capacidade armada. 

Liderados por figuras como Víctor Quispe Palomino, esses grupos protegem cultivos de coca, operam laboratórios e cobram “imposto revolucionário” de comunidades e traficantes.

Não se trata mais de uma revolução maoista, mas de controle territorial para o negócio do narcotráfico; uma mutação que o próprio Degregori e outros analistas já previam quando o projeto político original do Sendero ruiu. Ao mesmo tempo, a criminalidade comum explodiu em todo o território nacional. Extorsão — física e digital — tornou-se endêmica. A impunidade, segundo dados oficiais, permanece acima de 85% em muitos tipos de crime.

A instabilidade institucional agravou o quadro. Depois do impeachment de Pedro Castillo em 2022 e da destituição de Dina Boluarte pelo Congresso em outubro de 2025, o Peru chega à eleição de 2026 com uma sensação generalizada de que o Estado perdeu o controle de partes significativas do território e da vida cotidiana de seus cidadãos.

Keiko Fujimori e a proposta de restaurar a autoridade

É nesse contexto que Keiko Fujimori constrói sua candidatura. Seu plano de governo “Perú con Orden” não esconde a inspiração histórica. A candidata propõe retomar elementos que funcionaram contra o Sendero: inteligência, presença territorial e aliança com comunidades e atualizá-los com ferramentas atuais.

Entre as medidas centrais estão a criação de Centros de Comando integrados com inteligência artificial preditiva em todas as 24 regiões, o fortalecimento institucional das rondas campesinas, a construção de mega-prisões de segurança máxima sob administração temporária das Forças Armadas e a formação de um Comando Unificado permanente contra o crime organizado, integrando Polícia Nacional, Forças Armadas, Ministério Público e agências de inteligência.

As metas declaradas são ambiciosas: reduzir a taxa de homicídios em 20% até 2031 e baixar a impunidade de 90% para 50% por meio da expansão de unidades de flagrância. Keiko Fujimori também defende uma linha dura contra a extorsão, incluindo maior cooperação com o sistema financeiro para rastrear e bloquear recursos provenientes de chantagens.

A proposta é clara: o que derrotou o terrorismo maoista nos anos 1990 pode, e deve, ser adaptado para derrotar o crime organizado de hoje. Não se trata de repetir os erros autoritários do passado, argumentam seus assessores, mas de recuperar a capacidade do Estado de impor ordem onde ela se perdeu.

A esquerda oferece munição à narrativa

A estratégia de Keiko Fujimori ganha força adicional com as fragilidades da esquerda. Em outubro de 2025, o congressista Guillermo Bermejo, do partido Perú Libre, o mesmo de Pedro Castillo, foi condenado a 15 anos de prisão pelo delito de afiliação a organização terrorista. O tribunal considerou provado que, entre 2008 e 2009, Bermejo frequentou acampamentos de remanescentes do Sendero no VRAEM para receber instrução ideológica e recrutar militantes.

Casos como esse, somados a investigações anteriores contra ministros do governo Castillo por supostos vínculos com organizações de fachada do Sendero, reforçam, aos olhos de parte significativa do eleitorado, a percepção de que setores da esquerda radical mantêm tolerância ou conexões com remanescentes senderistas. 

Keiko Fujimori não precisa exagerar o argumento. Os fatos judiciais falam por si.

Ordem como condição de estabilidade

A eleição de 2026 coloca o Peru diante de uma escolha que transcende a polarização tradicional entre direita e esquerda. O que está em jogo é a capacidade do Estado de exercer o monopólio legítimo da força diante de ameaças que, embora tenham mudado de forma, mantêm a essência de contestação armada à autoridade institucional.

Keiko Fujimori aposta que a memória da vitória contra o Sendero Luminoso, combinada com um programa que mistura experiência histórica e modernização tecnológica, pode reconquistar o apoio de um eleitorado exausto pela instabilidade e pelo medo. Seus críticos alertam que essa narrativa carrega o risco de legitimar práticas autoritárias e de enfraquecer ainda mais as instituições já fragilizadas.

O que o Peru decide nas próximas semanas não é apenas quem ocupará o Palácio de Governo. É se o país será capaz de construir uma resposta duradoura à insegurança sem repetir os erros do passado e sem permitir que o crime organizado, em suas novas formas, ocupe o espaço que o terrorismo maoista deixou vago três décadas atrás.

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