O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, fala em uma coletiva de imprensa após sua reunião com o líder chinês, Xi Jinping, em 14 de abril de 2026, em Pequim, China. (Kevin Frayer/Getty Images)

Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

O alinhamento de Madri com Pequim durante a guerra do Irã, incluindo o bloqueio do acesso militar dos EUA e o eco das narrativas do Partido Comunista Chinês, sinaliza uma mudança estratégica que corre o risco de minar a unidade da OTAN e aprofundar a dependência da Europa em relação à China.

Quando os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro, o primeiro-ministro socialista da Espanha, Pedro Sánchez, agiu rapidamente para bloqueá-los. Madri se recusou a permitir que as forças americanas usassem duas bases militares operadas em conjunto em território espanhol — a Estação Naval de Rota e a Base Aérea de Morón — para operações relacionadas à guerra no Irã e, posteriormente, fechou totalmente seu espaço aéreo para aeronaves americanas envolvidas no conflito.

A ministra da Defesa espanhola, Margarita Robles, disse à imprensa: “Nem as bases estão autorizadas, nem, é claro, o uso do espaço aéreo espanhol está autorizado para quaisquer ações relacionadas à guerra no Irã".

Sánchez caracterizou o conflito como “uma intervenção militar injustificada e perigosa”. Desde então, ele tem repetidamente descrito a campanha dos EUA e de Israel como uma “guerra ilegal, imprudente e injusta”. Essa caracterização, invocando o direito internacional para se opor à ação militar dos EUA, teve eco no Grande Salão do Povo, em Pequim.

Em 14 de abril, apenas seis semanas após bloquear as bases americanas, Sánchez chegou a Pequim para uma reunião com o líder chinês Xi Jinping, sua quarta visita à China em quatro anos. Ao lado de Xi em uma coletiva de imprensa, Sánchez fez uma declaração que nenhum outro líder da OTAN chegou nem perto de fazer: “Parece-me muito difícil encontrar outros interlocutores que possam desvendar esta situação causada no Irã e no Estreito de Hormuz além da China".

Foi algo sem precedentes que um chefe de governo de um Estado-membro da OTAN estivesse em Pequim e designasse o PCCh — não os Estados Unidos, não as Nações Unidas, não a União Europeia — como a potência indispensável para resolver tanto o conflito no Irã quanto a guerra na Ucrânia.

Sánchez culpa os Estados Unidos pela guerra, mas o PCCh vem apoiando o regime iraniano há anos, como parte de seu eixo junto com a Rússia, a Coreia do Norte e o Afeganistão. Pequim adquire uma grande porcentagem de sua energia do Irã e, em troca, fornece a Teerã dinheiro e tecnologia, apoiando justamente os programas de mísseis, drones e nucleares que estão no cerne do atual conflito.

Nos últimos anos, quando os houthis, patrocinados pelo Irã, bloquearam o comércio no Mar Vermelho, os navios chineses receberam permissão de passagem, enquanto os navios espanhóis não. O mesmo se aplica ao atual fechamento do Estreito de Hormuz, onde a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou, em algumas ocasiões, que concederia passagem segura a embarcações chinesas, mas não fez nenhuma oferta semelhante à Espanha ou aos parceiros de Madri na UE ou na OTAN.

A visita a Pequim levou a Espanha ainda mais para dentro da órbita do PCCh. Sánchez anunciou 19 acordos bilaterais com a China, dominados pela cooperação econômica e comercial, e confirmou o estabelecimento de um novo Diálogo Estratégico Permanente com Pequim, um mecanismo de diálogo bilateral de alto nível que a China reserva para seus parceiros mais próximos.

No entanto, o nome oficial da relação é Mecanismo de Diálogo Diplomático Estratégico Espanha-China. Sánchez parece ter acrescentado a palavra “permanente”, sugerindo seu desejo de retratar a relação como sendo mais próxima do que realmente é. Mesmo essa ligeira mudança na formulação deve ser motivo de preocupação para os parceiros da UE e da OTAN, particularmente os Estados Unidos, pois sinaliza um afastamento da Espanha de seus parceiros ocidentais.

De acordo com a mídia estatal chinesa Xinhua, Sánchez disse a Xi que a Espanha “apoia ativamente as quatro principais iniciativas globais propostas” por Xi. Estas incluem a Iniciativa de Desenvolvimento Global (2021), a Iniciativa de Segurança Global (2022), a Iniciativa de Civilização Global (2023) e a Iniciativa de Governança Global (2025).

A Xinhua informou que Sánchez afirmou que “se opõe a uma nova guerra fria e à tentativa de desvincular e romper as cadeias de abastecimento”. Essa linguagem, referindo-se à necessidade de evitar uma nova guerra fria, é consistente com a mensagem do PCCh, que Pequim promove quando qualquer nação desafia suas exigências ou se opõe aos seus objetivos políticos. Um exemplo dessa visita de Sánchez é a alegação de Pequim de que Sánchez se opõe ao redirecionamento das cadeias de abastecimento para longe da China.

Existem inúmeras razões legítimas pelas quais a Europa se beneficiaria ao redirecionar suas cadeias de abastecimento para longe da China, que não equivalem a uma nova Guerra Fria. Um país pode optar por ser menos dependente da China sem estabelecer uma cortina de ferro e viver sob constante ameaça de guerra, como durante a Guerra Fria. No entanto, a “amizade” com Pequim é, em grande medida, um jogo de soma zero, em que os amigos do PCCh são aqueles que concordam com todos os objetivos políticos, e os “desestabilizadores imprudentes” são aqueles que se opõem a eles.

O aquecimento das relações da Espanha com Pequim é anterior à guerra do Irã. O rei Felipe VI fez uma visita de Estado à China em novembro de 2025, a primeira de um monarca espanhol em 18 anos, aprofundando uma relação que Sánchez vem cultivando no mais alto nível institucional desde que assumiu o cargo.

Em resposta à recusa da Espanha em conceder acesso à sua base, o presidente dos EUA, Donald Trump, chamou a Espanha de “terrível” e ordenou ao secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que “cortasse todas as relações” com Madri.

“Vamos cortar todo o comércio com a Espanha. Não queremos ter nada a ver com a Espanha”, disse Trump a repórteres em 3 de março.

Um e-mail interno do Pentágono obtido pela Reuters posteriormente delineou opções, incluindo a suspensão da Espanha da OTAN.

A disputa é agravada por uma segunda queixa. A Espanha é o único membro da OTAN que se recusou a comprometer-se com a meta de gastos com defesa de 5% do PIB acordada na cúpula de Haia no ano passado, insistindo que pode atingir suas metas de capacidade com 2%.

Consciente ou inconscientemente, a Espanha está servindo aos objetivos duplos do PCCh de enfraquecer a OTAN e manter a dependência da Europa das cadeias de abastecimento chinesas.

Pequim recentemente fez ameaças contra a UE por causa de seu programa proposto “Made in Europe”. O superávit comercial da China com a Europa já atingiu US$ 83 bilhões no primeiro trimestre de 2026. Enquanto isso, os preços do petróleo e da energia estão subindo na Europa em até 60% para algumas categorias de energia devido ao fechamento do Estreito de Hormuz pelo regime iraniano.

A esperança é que, quando o custo de apoiar a China se tornar insuportável, a Europa se junte aos Estados Unidos para reagir.

As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente a posição do Epoch Times.

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