O ditador cubano, Fidel Castro (esq.) fala com o venezuelano, Hugo Chávez (dir.) durante a sua visita ao monumento do soldado desconhecido em Campo Carabobo, Valencia, Venezuela, em 29 de outubro de 2000 (Adalberto Roque/AFP/Getty Images)

Após o fracasso da estratégia de focos guerrilheiros nos anos 1960 e 1970 e o colapso da União Soviética, Cuba não abandonou seu projeto de influência regional. Apenas adaptou os métodos. 

Na Venezuela, essa influência alcançou seu ponto mais profundo: acordos militares secretos de 2008 permitiram que assessores cubanos reestruturassem as Forças Armadas e os serviços de inteligência venezuelanos, ajudando a consolidar o controle do chavismo e, posteriormente, a sobrevivência política de Nicolás Maduro.

A fase da exportação armada (1959–1980)

Logo após a vitória da Revolução Cubana em 1959, o regime de Fidel Castro adotou uma política ativa de apoio a movimentos armados na América Latina. O objetivo era replicar o modelo cubano em outros países.

De acordo com documentos desclassificados da CIA, até março de 1963 entre 1.500 e 2.000 latino-americanos já haviam recebido treinamento de guerrilha ou doutrinação política em Cuba. A agência americana estimava que mais de 5 mil latino-americanos viajaram à ilha só em 1962.

A estratégia seguia a teoria do foco desenvolvida por Ernesto Che Guevara: pequenos grupos armados poderiam criar as condições para uma insurreição popular. O órgão responsável por coordenar esse esforço era o Departamento América, liderado por Manuel Piñeiro (“Barbarroja”).

Embora a maioria das tentativas tenha fracassado — o caso mais emblemático foi a morte de Che Guevara na Bolívia, em 1967 — a influência cubana sobre a esquerda armada da região foi significativa. Na Venezuela, grupos como as Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN) receberam apoio cubano nos anos 1960.

O alto custo humano dessa fase incluiu milhares de mortes de jovens revolucionários e a polarização intensa que contribuiu para a ascensão de regimes militares em vários países.

A adaptação dos anos 1990: do fuzil à coordenação política

Com a queda da União Soviética, Cuba perdeu seu principal patrocinador econômico e militar. A estratégia de exportação armada tornou-se insustentável.

Em julho de 1990, em São Paulo, nasceu o Foro de São Paulo. A iniciativa foi uma articulação conjunta de Fidel Castro e Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do PT. O objetivo declarado era unir a esquerda latino-americana para “resistir ao neoliberalismo” e garantir a sobrevivência do projeto socialista.

Lula, em 2013, resumiu o papel do Foro:

“Quero, companheiro diretor do Foro de São Paulo, debitar parte da chegada da esquerda ao poder na América Latina pela existência dessa ‘cosita’ chamada Foro de São Paulo. Devemos muito aos companheiros cubanos.”

O Foro funcionou como espaço de coordenação política e eleitoral. Muitos de seus participantes tinham ligações históricas com movimentos que haviam recebido apoio cubano nas décadas anteriores. A partir dos anos 2000, vários países elegeram governos alinhados ao Foro, sendo a Venezuela de Hugo Chávez o caso mais importante.

A aliança estratégica com a Venezuela chavista

A relação entre Cuba e Venezuela ganhou nova dimensão com a chegada de Hugo Chávez ao poder em 1999. Chávez admirava Fidel Castro e via na Revolução Cubana um modelo de resistência ao imperialismo.

A aliança se aprofundou em duas frentes principais:

ALBA-TCP (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América): criada em 2004, com Cuba e Venezuela como eixo central. O modelo previa troca de petróleo venezuelano por médicos, professores e assessores cubanos.

Acordos militares secretos de 2008: o ponto de maior penetração institucional cubana na Venezuela.

Os acordos militares de 2008 e a reestruturação das Forças Armadas

Após perder um referendo sobre reeleição em dezembro de 2007, Chávez buscou reforçar o controle sobre as Forças Armadas. Em 26 de maio de 2008, foram assinados dois acordos confidenciais entre os governos de Cuba e Venezuela.

Os documentos, revelados pela agência Reuters em 2019, permitiram que as Forças Armadas cubanas:

  • Treinassem soldados venezuelanos em território da Venezuela;

  • Revisassem e reestruturassem partes das Forças Armadas venezuelanas;

  • Treinassem agentes de inteligência venezuelanos em Havana;

  • Criassem o GRUCE (Grupo de Coordinación y Enlace de la República de Cuba), composto por oito especialistas militares cubanos com autorização para inspecionar unidades e treinar tropas.

Um dos acordos previa o envio de grupos de até 40 oficiais venezuelanos para treinamento de até três meses em Cuba, com os cubanos tendo poder de vetar os candidatos.

O papel da DGCIM e a influência cubana na repressão

A partir desses acordos, a antiga Dirección de Inteligencia Militar (DIM) foi reestruturada e transformada, em 2011, na Dirección General de Contrainteligencia Militar (DGCIM).

A mudança mais significativa foi na missão do órgão: passou a priorizar a vigilância interna das próprias Forças Armadas venezuelanas, em vez de focar apenas em ameaças externas. O objetivo era impedir conspirações e golpes criando um ambiente de medo e desconfiança entre os militares.

De acordo com a Missão Independente de Determinação de Fatos da ONU sobre Venezuela (relatório de 2022), ex-funcionários da DGCIM confirmaram que agentes cubanos “instruíram, assessora e participaram” de atividades de inteligência e contrainteligência do órgão. 

A ONU teve acesso aos acordos confidenciais de 2008 e confirmou o papel formal de Cuba na reestruturação dos serviços de contrainteligência militar venezuelanos.

A DGCIM tornou-se um dos principais instrumentos de repressão do regime, sendo responsabilizada por detenções arbitrárias, tortura, violência sexual e desaparecimentos forçados, especialmente contra militares suspeitos de deslealdade. 

A ONU documentou padrões de abusos que, em alguns casos, podem configurar crimes contra a humanidade.

Impacto da influência cubana na sobrevivência do regime

A estrutura montada com assessoria cubana — especialmente o controle interno das Forças Armadas via DGCIM e a presença de assessores em posições de segurança — foi fundamental para que Nicolás Maduro conseguisse sobreviver a múltiplas crises, incluindo tentativas de golpe e grandes protestos em 2019.

Maduro reconheceu publicamente a importância da aliança. Em discurso de 2017, afirmou: “Agradecemos às forças armadas revolucionárias de Cuba. Saudamos e sempre daremos as boas-vindas”.

Mesmo com a grave crise econômica e o colapso do fornecimento de petróleo venezuelano para Cuba a partir de meados da década de 2010, a influência cubana permaneceu presente nos aparatos de segurança e inteligência do regime.

Um modelo de destruição nacional exportado para a Venezuela

A relação entre os regimes cubano e venezuelano evoluiu ao longo de mais de seis décadas: do apoio a guerrilhas nos anos 1960, passando pela coordenação política via Foro de São Paulo nos anos 1990, até a penetração institucional profunda nas Forças Armadas e serviços de inteligência venezuelanos a partir de 2008.

Em nenhum outro país da América Latina a influência cubana alcançou o nível de institucionalização observado na Venezuela. 

Os acordos de 2008 e a reestruturação da DGCIM representam o ponto mais avançado dessa estratégia de adaptação — da exportação de revolução armada para a exportação de métodos de controle e repressão institucional.

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