(PX Media/Shutterstock)

Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

A Segunda Guerra Mundial havia terminado e a Guerra Fria já havia começado. O público estava exausto das grandes lutas ideológicas. A ideia de que os Estados Unidos embarcariam em mais uma campanha global parecia improvável. No entanto, em 1948, Harry Truman alertou sobre a nova ameaça: os russos.

O Partido Republicano não estava disposto a aceitar isso. Esse sentimento foi capturado pelo livro do senador Robert Taft, “A Foreign Policy for Americans” (Uma política externa para os americanos, em tradução livre) de 1951. Ele argumentava apaixonadamente que os Estados Unidos precisavam se concentrar na reconstrução do país, em vez de iniciar campanhas militares globais.

No mesmo ano, uma nova estrela intelectual surgiu em cena. Era William F. Buckley Jr., recém-formado pela Universidade de Yale. Seu livro de estreia causou grande impressão: “God and Man at Yale” (Deus e o homem em Yale). Mesmo hoje, é uma leitura maravilhosa e um lembrete de que as disputas políticas no campus, com o establishment sempre inclinado para a esquerda, não são novidade. Eventualmente, ele assumiria a posição de líder intelectual do que veio a ser chamado de conservadorismo americano.

O livro de Buckley documentou dois setores principais do ensino no campus: economia e religião. Em economia, a tendência era sempre o planejamento de cima para baixo. A economia keynesiana estava em alta na época e levou uma geração de intelectuais a acreditar que eles administravam a macroeconomia da mesma forma que os engenheiros construíam e administravam grandes máquinas. Buckley, por sua vez, era partidário do livre mercado e da economia clássica.

Depois, havia a questão da fé religiosa.

Naquela época, assim como hoje, era bastante fora de moda ser teísta no campus. Como católico devoto, Buckley revelou como as pessoas de fé são levadas a se sentir totalmente excluídas nas esferas mais altas da cultura do campus. Elas são cidadãos de segunda classe, enquanto um ateísmo arrogante dominava a cultura do campus. “Eu mesmo acredito que o duelo entre o cristianismo e o ateísmo é o mais importante do mundo”, escreveu ele em sua passagem mais famosa.

“Acredito ainda que a luta entre o individualismo e o coletivismo é a mesma luta reproduzida em outro nível".

A linguagem crítica aqui é opor o individualismo ao coletivismo. É aqui que a linguagem que dominaria a Guerra Fria foi traçada. Na visão de Buckley, essa era uma batalha de sistemas: um centrado nos direitos e ações individuais e outro que tratava a população humana como uma massa uniforme a ser moldada e controlada pelo Estado.

Buckley estava, é claro, se referindo ao modelo econômico da União Soviética, aliada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha e o Japão, que se tornaria o inimigo principal nos 40 anos seguintes. Acontece que os soviéticos também apoiavam uma política oficial de ateísmo que seria consistente com os postulados filosóficos marxistas.

Essa linguagem de individualismo versus coletivismo não era exclusiva de Buckley (as fontes provavelmente foram Ayn Rand e o amigo de Buckley, Frank Chodorov), mas foi ele quem a popularizou no lado direito do espectro político. Essa linguagem permaneceu por décadas.

Consigo ver a atração do individualismo metodológico. Somente os indivíduos pensam e agem. Somente os indivíduos têm direitos perante a lei. O pensamento e a ação em grupo são inconsistentes com a ideia de liberdade. Todo plano central focava no status de grupos inteiros, sobrepondo-se à escolha individual. Há sempre algo de errado com uma política que pretende agir em nome de grupos inteiros, como se as mentes individuais não estivessem em ação: trabalhadores, investidores, ricos, pobres, mulheres, negros e assim por diante. Esse pensamento agregado pode ser perigoso.

Dito isso, há limites graves associados a um individualismo filosófico estrito. Todos nós viemos de famílias e buscamos construir as nossas. Associamo-nos a grupos na forma de comunidades cívicas e associações religiosas. Temos grupos de amigos, responsabilidades familiares, lealdades a outras pessoas no comércio e na fé, e vivemos em nações com tradições e aspirações.

A liberdade requer comunidade. Ela vive como parte dela. A implantação de um individualismo bruto ignora essas complexidades.

De fato, uma característica peculiar do livro de Ayn Rand, “A Revolta de Atlas” (1957), é como ela postula uma sociedade composta apenas por atores individuais adultos, em sua maioria solteiros, nenhum com filhos, nenhum com pais idosos que precisam de cuidados, nenhum com pessoas com deficiência que precisam de atenção e nenhum que faça parte de algum grupo religioso ao qual se sintam ligados. O casamento em si é apresentado como opressivo, algo de que se deve fugir, enquanto a criação dos filhos não aparece de forma alguma.

O livro é uma leitura fascinante e, por vezes, inspiradora, mas uma vez que se percebe essas lacunas na narrativa, não é possível ignorá-las. Sim, é um livro sobre individualismo, mas não é um livro sobre a sociedade como a conhecemos na vida real.

A omissão aqui é, sem dúvida, deliberada: uma filosofia de ética individualista rígida necessariamente fingirá que toda uma classe de lutas humanas normais simplesmente não existe.

É por isso que o termo individualismo é muito limitado para descrever como a liberdade funciona. Foi um bom slogan para os propósitos da Guerra Fria, mas não funciona como defesa do tipo de sociedade em que queremos viver.

O novo prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, afirmou em seu discurso de posse que rejeitaria a “frigidez do individualismo” em favor do “calor do coletivismo”. Seu comentário reviveu essa linguagem antiga e levou a uma enxurrada de memes sobre a terrível história das experiências comunistas e socialistas. Ele foi criticado por essa observação, mas o que mais me incomoda é a linguagem usada aqui.

A alternativa ao coletivismo não é o individualismo frio, mas os arranjos sociais infinitamente complexos que acompanham a própria liberdade, que envolve não apenas indivíduos, mas uma multiplicidade de relações comunitárias e responsabilidades mútuas que evoluíram espontaneamente. De fato, na visão de Alexis de Tocqueville, essa é a essência do que é a América.

O sociólogo Robert Nisbet explicou ainda que uma liberdade que depende exclusivamente do individualismo provavelmente não sobreviverá a um ataque do Estado e de outras instituições poderosas. Em vez disso, precisamos do que chamamos de instituições mediadoras para servir como uma espécie de baluarte contra as invasões do poder. Precisamos de escolas, igrejas, relações cívicas, comunidades coesas, famílias robustas, bem como um setor comercial próspero que combine indivíduos heróicos e relações grupais.

Nisbet alertou que o individualismo sem comunidade leva à alienação, à insegurança psicológica e ao crescimento de um Estado arrogante — exatamente o oposto da liberdade genuína. “É impossível compreender as concentrações massivas de poder político no século XX... a menos que vejamos a estreita relação que prevaleceu... entre o individualismo e o poder do Estado".

“O indivíduo abstrato e autônomo não existe nem jamais poderá existir”, escreveu ele. “A verdadeira individualidade prospera dentro das relações sociais e dos grupos, não em um vácuo social".

É ainda mais do que ele diz. O indivíduo habita um vasto oceano de costumes sociais, tradições, pressupostos filosóficos profundos, tecnologias, contextos culturais e presunções sobre a lei e as expectativas dos outros, e todo um mundo ao nosso redor que ultrapassa em muito nossa capacidade individual de compreender tudo isso. Não existe um ator individual isolado.

É por isso que ofereço esta advertência. Só porque Mamdani rejeita algo, não significa que seus oponentes devam abraçá-lo. O uso do termo individualismo por Buckley funcionou em sua época como uma forma de enquadrar os debates existentes. Mas não funciona para descrever o que uma sociedade livre precisa para manter sua liberdade. Sim, precisamos de indivíduos heróicos, mas eles vêm de algum lugar e deixam para trás algo que é necessariamente maior do que o indivíduo.

Não há calor no coletivismo, mas também não existe no individualismo atomizado como tal. É a comunidade que buscamos — e isso inclui a nação como uma entidade também —, uma comunidade que evolui naturalmente a partir de uma sociedade de pessoas ambiciosas que apreciam agir como indivíduos e em nome deles, e também como parte de grupos.

Keep Reading

No posts found