
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.
A turnê em curso de um navio chinês por vários países da América Latina é uma missão de serviços médicos, segundo autoridades chinesas.
Mas a recente visita do navio ao Brasil aumentou as preocupações de que a missão do navio-hospital vá além do caráter humanitário, depois que autoridades brasileiras foram impedidas de inspecionar a enorme embarcação.
Quando o navio, apelidado de Silk Road Ark, chegou ao Rio de Janeiro no início de janeiro, autoridades brasileiras levantaram preocupações de que ele estaria prestando atendimento médico sem autorização local. Outros temiam que o atendimento não autorizado pudesse servir de fachada para coleta de informações ou espionagem.
As preocupações com a visita surgem em paralelo ao aumento da atenção dos Estados Unidos à região, com a retomada da Doutrina Monroe sob o presidente dos EUA, Donald Trump, e a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Enquanto isso, a emissora estatal chinesa CCTV exibiu, em dezembro de 2025, exercícios de guerra do Exército de Libertação Popular simulando combates próximos a Cuba, ao Golfo do México e ao Caribe.
Segundo especialistas e autoridades brasileiras que falaram ao The Epoch Times, o objetivo da turnê pode estar ligado ao fortalecimento militar da China na região, em antecipação a um possível conflito direto futuro com os Estados Unidos.
“Está claro que esse navio-hospital, o Silk Road Ark, faz parte das forças navais chinesas. Em outras palavras, é um navio militar, ainda que seja um navio-hospital”, disse ao Epoch Times Evan Ellis, professor de estudos sobre a América Latina no U.S. Army War College.
Uma missão médico-militar
A trajetória do Silk Road Ark começou em setembro de 2025 nas ilhas do Pacífico Sul. Em novembro de 2025, seguiu para a América Latina, fazendo uma parada técnica antes de ir à Jamaica — recentemente atingida pelo furacão Melissa —, depois a Barbados, chegando ao Brasil em 8 de janeiro.
O navio deixou o Brasil em 15 de janeiro, passou quatro dias no Uruguai e está programado para visitar Chile, Peru e México antes de retornar à China.
O navio-hospital chinês ganhou atenção depois que autoridades receberam informações de que a tripulação chinesa estaria prestando atendimento médico à população local sem autorização das autoridades brasileiras.
Segundo autoridades chinesas, o objetivo do que foi chamado de Missão Harmonia 2025 é “realizar serviços médicos e atividades de intercâmbio cultural” com outros países.
Mas o navio, com mais de 10 mil toneladas e pertencente ao Exército de Libertação Popular, ganhou atenção significativa durante sua escala no Brasil depois que autoridades receberam informações de que a tripulação chinesa estaria prestando atendimento médico à população local sem autorização das autoridades brasileiras. Fotos e relatos também indicavam que o navio possuía características militares.

O navio-hospital chinês Arca da Rota da Seda zarpou rumo ao Pacífico Sul e à América Latina para a Missão Harmonia 2025, em 5 de setembro de 2025. Ministério da Defesa Nacional da República Popular da China.
Enquanto autoridades na Jamaica e em Barbados receberam com satisfação o atendimento médico oferecido pelo navio chinês a seus cidadãos, algumas autoridades brasileiras foram mais cautelosas.
“Nenhum atendimento médico prestado por médico estrangeiro em território nacional pode ser realizado sem autorização do Conselho Federal de Medicina”, disse ao Epoch Times o médico brasileiro Francisco Cardoso, que preside o órgão no estado de São Paulo. “Isso inclui embarcações estrangeiras em águas brasileiras.”
O Conselho Federal de Medicina é responsável por licenciar médicos e fiscalizar o cumprimento das leis médicas.
O navio tinha autorização da Marinha do Brasil para atracar em águas brasileiras. No entanto, Cardoso e o Conselho Federal de Medicina não haviam concedido a autorização necessária para que o pessoal do navio realizasse procedimentos médicos no Brasil.
“Houve coleta de material biológico? Sangue? Seja o que for, não sabemos… Não sabemos o que foi feito ali e, do nosso ponto de vista, isso coloca a população em risco.”
Chegaram a Cardoso e a outras autoridades alegações de que o navio estava oferecendo atendimento médico não autorizado a cidadãos brasileiros.
Diante das alegações, o médico Raphael Câmara, consultor do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro — o estado em que o navio estava atracado — foi enviado ao navio para realizar uma inspeção.
Ele afirmou que seu objetivo era reunir informações sobre o atendimento médico prestado no navio. “Houve uso de alguma substância? … O que todas aquelas pessoas estavam fazendo ali? Houve coleta de material biológico? Sangue? Seja o que for, não sabemos”, disse Câmara ao Epoch Times.
“Não sabemos o que foi feito ali e, do nosso ponto de vista, isso coloca a população em risco.”
Ele afirmou estar preocupado porque, caso consultas ou tratamentos médicos não autorizados tenham ocorrido, não haveria registro desses atendimentos, o que dificultaria o acompanhamento médico posterior.

O navio-hospital chinês Arca da Rota da Seda chega a Montego Bay, Jamaica, em 4 de dezembro de 2025. Ministério da Defesa Nacional da República Popular da China.
“O Rio de Janeiro não precisa de nenhuma ajuda humanitária. Temos médicos suficientes no Rio de Janeiro”, disse Câmara. “Entendemos que existem outros lugares que precisam muito mais desse navio do que o Brasil.”
Ao chegar ao navio, Câmara e sua equipe tiveram de aguardar a chegada do cônsul chinês, responsável pela operação. O cônsul chegou em uma van com vários militares chineses.
No entanto, o cônsul chinês impediu Câmara de entrar no navio.
“Ele também disse que, se decidíssemos enviar uma carta oficial, ele não responderia”, afirmou Câmara.
“Na minha visão, isso foi dito de forma hostil. Por que dizer que não responderia se enviássemos a carta? Não me parece a maneira adequada de lidar com um órgão federal que tem o poder e o dever de fiscalizar isso.”
Cardoso disse que não é normal que um pedido desse tipo de inspeção por parte das autoridades seja negado. “Normalmente, eles permitem, até para mostrar que está tudo em ordem”, afirmou.
Câmara disse que entrou em contato com a Secretaria Estadual de Saúde, órgão responsável por gerir e coordenar o sistema público de saúde em nível estadual. Embora exista cooperação entre o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro e a Secretaria Estadual de Saúde, os dois órgãos atuam de forma independente.
Autoridades da Secretaria Estadual de Saúde haviam inicialmente promovido os serviços do navio e até realizado uma recepção para seu pessoal, disse Câmara. Mas, quando ele tentou tratar do assunto com elas, negaram que qualquer atendimento médico tivesse sido prestado. As autoridades chinesas também negaram.

O navio-hospital chinês Arca da Rota da Seda está atracado no Rio de Janeiro em janeiro de 2026. Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro
O Epoch Times entrou em contato com a Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro para esclarecimentos sobre se houve atendimento médico prestado pelo navio, quem o recebeu e se foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina.
“Não há menção, em nenhuma comunicação das autoridades chinesas, de qualquer tipo de atendimento de saúde prestado no navio-hospital Ark Silk Road”, respondeu a secretaria. “A visita do navio ao país foi resultado de um pedido da Marinha chinesa à Marinha brasileira.”
Características militares
Câmara disse que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), principal órgão de saúde do país, também informou que não conseguiu inspecionar o navio.
“Eles também não puderam inspecioná-lo, porque se tratava, na verdade, de uma operação de guerra autorizada pelo Ministério da Defesa brasileiro”, disse Câmara. “Então, na prática, era supostamente um navio médico militar chinês, prestando atendimento e sem ser inspecionado [pelas autoridades de saúde].”
O ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, disse ao Epoch Times que “se a missão do navio fosse caracterizada como a presença de forças estrangeiras em território brasileiro, isso exigiria autorização prévia do Congresso”.
A visita do navio incluiu um exercício marítimo conjunto das forças navais do Brasil e da China. O navio chinês também demonstrou uma operação de combate e resgate.
Cardoso afirmou que, para um navio-hospital, ele era “pelo menos 10 vezes maior do que qualquer navio semelhante disponível no mercado”.
“Havia equipamento militar a bordo, e não pouco, segundo relatos de trabalhadores portuários. Havia também muito equipamento de comunicações”, disse ele.
“Isso é inédito, sem paralelo em nossa história, esse tipo de navio atracar aqui.”
Ellis afirmou que os chineses “estão fazendo diplomacia médico-militar”.
“E outros tipos de coleta de inteligência também não podem ser descartados. O navio fez escalas na Nicarágua, mas também na Jamaica, pouco antes do início da operação dos EUA para capturar Maduro e também depois”, disse ele.

A tripulação do navio-hospital chinês é recebida pelas autoridades militares nicaraguenses em 10 de dezembro de 2025. Exército da Nicarágua
Um relatório do Center for Strategic and International Studies, de julho de 2025, classificou o Porto de Kingston, na Jamaica, como “alto risco” devido à sua localização estratégica e ao grau de influência chinesa no local.
Da mesma forma, durante sua escala na Nicarágua, em novembro de 2025, a tripulação chinesa foi recebida com uma cerimônia especial presidida por altos oficiais militares, incluindo o ministro da Defesa, o chefe da Marinha nicaraguense, o comandante-chefe do Exército da Nicarágua e o presidente da Assembleia Nacional.
Laços regionais e presença chinesa
Araújo expressou preocupações quanto às motivações da China.
“Nenhuma ação chinesa é gratuita ou rotineira, especialmente em um caso inédito como este”, disse ele.
“Acredito que tenha sido, sobretudo, uma mensagem a Lula, indicando que a China vê com desagrado a aproximação de Lula com Trump e que a China não abandonará facilmente a imensa influência que conquistou no Brasil.”
Essa aproximação entre Brasil e Estados Unidos ocorreu durante a reunião da ONU em 2025, quando Lula e Trump se encontraram pouco antes do discurso oficial de Trump e concordaram em realizar um encontro oficial entre os dois líderes.
Isso ocorreu após vários meses de tensões crescentes e quase paralisação das relações diplomáticas entre os dois países.
Em julho de 2025, o Departamento de Estado dos EUA anunciou sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes “por graves abusos de direitos humanos”, especificamente em relação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em uma postagem nas redes sociais, Trump caracterizou o julgamento como uma “caça às bruxas”. Bolsonaro acabou sendo condenado a mais de 27 anos de prisão.
O Brasil possui as segundas maiores reservas de minerais de terras raras do mundo, um ativo estratégico na disputa entre China e EUA
Em uma ordem executiva de 30 de julho de 2025, Trump anunciou tarifas adicionais contra o Brasil, em resposta à “perseguição política” a Bolsonaro. O presidente chamou as ações do governo brasileiro de “uma ameaça incomum e extraordinária … à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”.
No entanto, os laços entre Brasil e China, que substituiu os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil em 2009, tornaram-se mais estreitos nos últimos anos.
Em 2024, Lula se reuniu com Xi Jinping durante a viagem do líder chinês ao Brasil para participar da cúpula do G20. No encontro, 37 acordos bilaterais foram assinados, e a relação entre Brasil e China foi elevada a uma “comunidade com futuro compartilhado”.
Em 23 de janeiro, poucos dias após o navio chinês deixar o Brasil, Xi falou por telefone com Lula, afirmando que a China está pronta para “impulsionar um maior desenvolvimento das relações bilaterais” com o Brasil.
Enquanto isso, os Estados Unidos também buscam fortalecer os laços com o governo brasileiro.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (centro à direita) se reúne com o presidente dos EUA Donald Trump (centro à esquerda) durante um encontro bilateral à margem da 47ª Cúpula da ASEAN em Kuala Lumpur, Malásia, em 26 de outubro de 2025. Andrew Caballero-Reynolds/AFP via Getty Images
No fim de 2025, os Estados Unidos anunciaram a retirada das sanções contra Moraes.
A remoção das sanções foi vista como uma tentativa de reconstruir os laços com o atual governo brasileiro. O país possui as segundas maiores reservas de minerais de terras raras do mundo, um ativo estratégico na disputa entre China e EUA.
Em 26 de janeiro, três dias após sua conversa com Xi, Lula falou por telefone com Trump e anunciou que viajaria aos Estados Unidos em fevereiro para se encontrar com o presidente americano.
O governo dos EUA também tem buscado fortalecer laços com vários outros países da região, além do Brasil.
Recentemente, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que aprovou a possível venda de US$ 1,5 bilhão em equipamentos e serviços para modernizar a principal base naval do Peru, melhorando a infraestrutura portuária do país em competição com um megaporto apoiado pela China, a cerca de 80 quilômetros de distância.
Em sua Estratégia de Segurança Nacional de 2025, o governo Trump retomou a Doutrina Monroe, com o objetivo de aumentar a influência dos EUA na América Latina, aprofundar parcerias, “reajustar sua presença militar global na região” e conter a crescente expansão de adversários americanos como China, Rússia e Irã.
“Este é o NOSSO Hemisfério”, publicou o Departamento de Estado nas redes sociais dois dias após a captura de Maduro pelo Exército dos EUA.
“É aqui que vivemos — e não vamos permitir que o Hemisfério Ocidental seja uma base de operações para adversários, competidores e rivais dos Estados Unidos”, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em 4 de janeiro.
Poucos dias depois, a China divulgou um livro branco sobre sua política para a América Latina e o Caribe, afirmando que deseja aumentar sua cooperação “em todas as frentes” com os países latino-americanos, acrescentando que “a China realizará ativamente intercâmbios e cooperação militar com os países da América Latina”.

A emissora estatal chinesa CCTV transmite um exercício militar do Exército de Libertação Popular simulando combates perto de Cuba, no Golfo do México e no Caribe, em 10 de dezembro de 2025. O aumento da presença militar chinesa na região tem gerado preocupações sobre a extensão da infraestrutura chinesa na área e como ela poderia ser utilizada em tempos de guerra contra os Estados Unidos. CCTV/Captura de tela via The Epoch Times
Segundo Ellis, o documento chinês também “destaca a colaboração em questões de segurança em áreas como crime organizado, cibersegurança, lavagem de dinheiro, entre outras”. Essa colaboração, disse ele, abre portas para que os chineses interajam com forças de segurança, evidenciando “a intenção da China de expandir atividades que geram preocupações quanto à espionagem”.
Em 19 de dezembro de 2025, enquanto o Silk Road Ark seguia da Jamaica para Barbados, a CCTV exibiu o Exército chinês simulando um exercício de guerra entre o Exército de Libertação Popular e uma força adversária. Uma imagem mostra claramente operações de combate ocorrendo próximas ao Golfo do México, Cuba e ao Caribe.
O aumento da presença militar chinesa levantou preocupações sobre a extensão da infraestrutura chinesa na região e sobre como ela poderia ser utilizada em tempos de guerra contra os Estados Unidos.
"[O alcance da China] é absolutamente global e está bem debaixo do nosso nariz."
“A infraestrutura chinesa na região pode ser usada em tempos de guerra, embora seu propósito em tempos de paz possa ser comercial”, disse Ellis.
“Por exemplo, o Porto de Chancay, no Peru. Se houver controle inadequado do porto ou se o governo peruano for simpático ao regime chinês, ele poderia ser usado para reabastecer navios de guerra chineses com armas [ou] mísseis ou para apoiar operações de combate contra os Estados Unidos ou seus flancos no Pacífico oriental.”
Laura Richardson, então comandante do Comando Sul dos EUA, alertou sobre isso em 2023.
“A importância da região não pode ser exagerada”, disse Richardson em um evento do Center for Strategic and International Studies. “[O alcance da China] é absolutamente global e está bem debaixo do nosso nariz.”

Uma vista aérea mostra inspetores revisando o andamento da construção e apresentando os primeiros guindastes elétricos no Porto de Chancay, no Peru, em 14 de junho de 2024. Presidência do Peru/CC-BY-2.0






