O líder russo Vladimir Putin em Dushanbe, Tajiquistão, em 10 de outubro de 2025. (Sputnik/Grigory Sysoev/Pool via Reuters)
À luz das crescentes tensões na Europa devido às incursões de drones e aeronaves russas no espaço aéreo de países da OTAN, a Rússia tenta criar a impressão de que a Aliança Atlântica está fabricando incidentes para ter uma desculpa que lhe permita escalar “a guerra contra a Federação Russa”.
Na 23ª reunião do Valdai International Discussion Club — um fórum de debate que reúne funcionários russos e certos “convidados” estrangeiros e que, até a invasão russa da Ucrânia em 2022, foi o principal espaço de desinformação da Rússia dirigido ao público estrangeiro —, Putin declarou que os alertas sobre a agressão russa eram “tolices” e acusou os europeus de tentar “alimentar a histeria” em todo o continente.
Essa acusação foi desenvolvida com o argumento de que forças no Ocidente estão organizando provocações. Em um relatório de 2 de outubro intitulado “O roteiro da operação de falsa bandeira contra a Rússia se repete”, a Sputnik International citou Simone Monticchio, acadêmico da Universidade Estatal Lomonosov de Moscou, que, ao se referir ao muro anti drones na Dinamarca, advertiu em uma entrevista ao programa Sétimo Andar que a “histeria midiática em torno dos supostos drones russos sobre países da OTAN” faz parte de “uma estratégia de provocação promovida pelos serviços de inteligência, especialmente os britânicos, para criar uma desculpa para uma intervenção”.
Entre os cenários mencionados por Monticchio figurava “o pouso de drones disfarçados de russos em território polonês para culpar Moscou”.
Monticchio citou três exemplos anteriores de ataques de falsa bandeira no Ocidente: o afundamento do USS Maine no porto de Havana em 1898, que levou ao início da Guerra Hispano-Americana; o incidente do Golfo de Tonquim em 1964, usado para justificar a escalada da guerra dos Estados Unidos no Vietnã; e o incidente de Gleiwitz, em que oficiais da SS alemã, vestidos como poloneses, atacaram uma estação de rádio alemã em 31 de agosto de 1939, fornecendo uma justificativa falsa para que a Alemanha iniciasse a Segunda Guerra Mundial.
O destino do USS Maine permanece sem esclarecimento após mais de 125 anos. Reconhece-se que, no incidente do Golfo de Tonquim, houve uma má interpretação de sinais, e o ataque de falsa bandeira alemão não foi cometido pelo Ocidente, mas por um regime inimigo do Ocidente.
Na realidade, os relatos sobre incursões russas no espaço aéreo ocidental estão longe de ser “tolices” e demonstram a intenção da Rússia de usar a ameaça de guerra para intimidar o Ocidente. No dia 20 de setembro, três caças russos MiG-31 entraram no espaço aéreo da Estônia a partir do nordeste e permaneceram lá sem permissão durante 12 minutos. Aviões F-35 italianos, baseados na Estônia sob a missão de Polícia Aérea do Báltico da OTAN, foram enviados para escoltar as aeronaves para fora do espaço aéreo estoniano. Segundo as autoridades estonianas, essa foi a quinta violação do espaço aéreo do país no ano.
O presidente tcheco Petr Pavel, ex-presidente do Comitê Militar da OTAN, descreveu a incursão como “um exercício de equilíbrio à beira do conflito”.
Quase ao mesmo tempo da incursão na Estônia, drones aparentemente lançados de navios de carga russos no Mar Báltico interromperam quase 200 voos com origem ou destino em Oslo e Copenhague, duas capitais da OTAN situadas a cerca de 300 milhas de distância uma da outra. Os dois ou três drones que sobrevoaram repetidamente o aeroporto de Kastrup, em Copenhague — o mais movimentado da Escandinávia —, tinham uma envergadura de cerca de 2,5 metros (oito pés), indicando tecnologia de um ator estatal. Como demonstração de desprezo, os operadores acendiam e apagavam as luzes dos drones.
A primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen declarou à imprensa: “A polícia considera que se trata de um ator com capacidades avançadas”.
De fato, os Estados democráticos, com sociedades abertas, sistemas legais funcionais e imprensa livre, estão pouco preparados para fabricar incidentes como desculpa para iniciar uma guerra. A Rússia, ao contrário, tem uma longa história de conspirações e provocações. O ataque de falsa bandeira mais significativo perpetrado pela Rússia foi o atentado a bomba contra prédios residenciais em Moscou, Buinaksk e Volgodonsk em 1999, atribuído a separatistas chechenos e usado para justificar a segunda guerra da Chechênia.
Do ponto de vista do regime, a situação na Rússia no outono de 1999 era crítica. Após oito anos de reformas econômicas que resultaram em fracasso econômico e colapso demográfico, o presidente Boris Yeltsin era profundamente impopular. Vladimir Putin, recém-nomeado primeiro-ministro e sucessor designado, tinha apenas 2% de aprovação. Os assessores de Yeltsin acreditavam que não havia uma maneira “normal” de que Putin — ou qualquer pessoa apoiada por Yeltsin — pudesse vencer as próximas eleições presidenciais.
No entanto, os atentados, que mataram 300 pessoas, mudaram tudo. Putin apareceu constantemente na televisão, prometendo “destruir os terroristas em suas latrinas”. Os separatistas chechenos foram acusados, sem provas, de cometer os ataques, e a Rússia lançou uma invasão de Chechênia que havia sido preparada com antecedência — inicialmente bem-sucedida. A popularidade de Putin disparou e, em março de 2000, ele foi eleito presidente da Rússia.
Com o passar dos dias, porém, tornou-se evidente — com base em abundantes provas — que as autoridades haviam perpetrado os atentados. Os locais das explosões foram arrasados com escavadeiras, eliminando escombros e restos humanos e destruindo a cena do crime. O hexógeno, explosivo usado nos ataques, era produzido apenas em uma fábrica rigidamente controlada pelo FSB (Serviço Federal de Segurança).
Mais importante ainda, foi descoberta uma quinta bomba no porão de um edifício em Riazan, cidade ao sudeste de Moscou. A bomba foi desativada, e as pessoas que a colocaram eram agentes do FSB — não terroristas chechenos.
Diante da indignação do Ocidente pelas incursões russas no espaço aéreo da OTAN, as acusações russas de operações de falsa bandeira por parte do Ocidente têm como objetivo confundir a opinião pública mundial. Contudo, o que está em jogo é um caso clássico de projeção: a atribuição ao Ocidente das mesmas táticas que a própria Rússia emprega.






