Documentos que foram incluídos nos EUA A divulgação dos arquivos de Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça foi fotografada em 2 de janeiro de 2026. Jon Elswick/Foto AP

Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

Quando o Departamento de Justiça dos EUA divulgou o que descreveu como o lote final de documentos de Jeffrey Epstein sob a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, em 30 de janeiro — quase 3,5 milhões de páginas ao todo — a narrativa jurídica pouco mudou. Nenhuma grande nova acusação surgiu. O que mudou foi a narrativa social.

Os arquivos trouxeram de volta à tona um mundo que a maioria das pessoas nunca vislumbra: a rede estreitamente interligada no ápice da política, das finanças, da realeza, da academia e das celebridades. Não decisões judiciais nem provas cabais — apenas proximidade. Nomes aparecendo juntos, contatos registrados, salas e voos compartilhados. A reação foi visceral, não apenas nos Estados Unidos, mas também do outro lado do Atlântico.

Na Grã-Bretanha, por exemplo, os vínculos ressurgidos — particularmente aqueles envolvendo Peter Mandelson e suas conexões documentadas com Epstein — desencadearam uma nova crise nos círculos trabalhistas. Jornais questionaram processos de verificação, ministros do gabinete se distanciaram de nomeações antes rotineiras, e revoltas internas começaram a emergir. Líderes foram compelidos a explicar não crimes, mas associações contínuas. O Telegraph captou o clima: um governo sob pressão, à medida que a confiança pública colidia com redes sociais da elite, desencadeando revolta aberta dentro do partido governista.

De repente, o público pôde ver quão pequeno o mundo do poder realmente é — com que frequência os mesmos nomes reaparecem, quão interligados permanecem os círculos de elite, e quão rapidamente a proximidade se transforma em veneno político quando a confiança se rompe.

A maioria dos nomes que surgiram no debate público não enfrentou acusações. Aparência não é culpa. Associação não é condenação. Mas a reação pública raramente segue a lógica do tribunal. Ela funciona como um teste de estresse: uma fotografia, um vínculo social e uma decisão de verificação tornam-se um referendo sobre julgamento.

A questão central é enganosamente simples: como alguém como Epstein se infiltra tão profundamente nas redes de elite sem disparar alarmes? Essa pergunta vai além de um único escândalo, pois a história sugere que isso está longe de ser novidade.

A maioria imagina a corrupção das elites como uma conspiração. A realidade costuma ser mais banal — e talvez mais perigosa. A sociedade de elite opera como um ecossistema social. Convites, patrocínios, conferências, fundações, conselhos consultivos, jantares privados — esses são os mecanismos. Presença torna-se moeda, acesso torna-se reputação, e reputação torna-se poder. Você não precisa gostar de todos no círculo. Basta circular. Naturalmente, alguém nesses círculos terá múltiplas fotos sorrindo com outras pessoas em diversos eventos públicos e privados. Isso não implica culpa.

Essa circulação cria um paradoxo: a confiança, a familiaridade e o contato repetido que fazem as redes de elite realmente funcionarem também as isolam. As pessoas presumem que aqueles ao seu redor já foram devidamente avaliados. A reputação torna-se autorreforçadora. Levantar dúvidas torna-se socialmente custoso — ninguém quer ser o alarmista em uma sala de amigos poderosos, porque o custo é enorme.

Pontos cegos se formam a partir do conforto. Uma figura bem conectada torna-se uma ponte; pontes raramente são questionadas porque questioná-las ameaça todos que as atravessam. O sistema protege a ponte até que ela desmorone — somente então todos se perguntam como ela se manteve de pé por tanto tempo.

O mecanismo da deterioração

A decadência das elites começa com uma narrativa que as elites — e aqueles que aspiram a sê-lo — contam a si mesmas. Toda classe dominante estável desenvolve uma divisão mental: aqueles dentro do círculo e todos os demais. Não codificada, não anunciada, mas visível no comportamento. O círculo torna-se o ponto de referência para a realidade. Problemas são discutidos, e riscos são avaliados dentro dele. As obrigações morais encolhem até seu perímetro, e o sofrimento fora dele torna-se abstrato.

Isso não é moderno. É um dos sinais de alerta mais consistentes da história para uma sociedade.

Na Roma tardia, famílias aristocráticas governavam províncias por meio de sistemas tributários que já não experimentavam pessoalmente; senadores debatendo política fiscal enquanto a infraestrutura se deteriorava. O império enfraqueceu não porque as elites fossem vilões caricatos, mas porque deixaram de sentir as consequências de suas decisões. A extração continuou enquanto a reciprocidade desaparecia.

Na França Bourbon, Versalhes tornou-se um universo social desconectado. A nobreza disputava proximidade com o rei enquanto a escassez de grãos devastava regiões. Revoltas por pão eram distúrbios na periferia de seu mundo, não advertências sistêmicas. O apócrifo “que comam brioches” perdura porque captura uma verdade psicológica mais profunda: as elites já não compreendiam as condições daqueles que governavam.

Tropas francesas invadindo a Bastilha durante a Revolução Francesa. A prisão representava a odiada monarquia Bourbon, e o Dia da Bastilha é agora celebrado como o início da revolução. Rischgitz/Getty Images

A Rússia pré-1917 viu uma aristocracia culturalmente europeia, francófona e socialmente isolada — vivendo em salões enquanto a miséria industrial piorava em cidades que raramente frequentavam. O colapso as chocou não porque os sinais estivessem ausentes, mas porque pertenciam a um mundo diferente.

A China do final da dinastia Qing girava em torno de rituais da corte e manobras faccionais enquanto pressões estrangeiras e agitação interna aumentavam. A corrupção frequentemente era autopreservação institucional — proteger redes em vez de reformar sistemas. O Estado esvaziou-se por dentro.

Deriva do sentimento de direito

A deriva do sentimento de direito agrava isso. As elites raramente acordam como vilãs. Acordam acreditando que são necessárias: políticos carregam responsabilidade nacional, cientistas promovem a humanidade, artistas sustentam a cultura. Essas crenças frequentemente são verdadeiras. O perigo surge quando a importância silenciosamente se transforma em exceção — “minhas recompensas devem ser excepcionais”, “limites normais não se aplicam totalmente”.

A mudança raramente é consciente. É uma racionalização lenta — bajulação de patrocinadores, acesso por redes, luxos reinterpretados como correção merecida. Sinais de alerta se desfocam. Fronteiras se suavizam. Ambientes que alarmariam pessoas de fora parecem normais para quem está dentro, convencido de que pertence ali.

Corrupção nem sempre é financeira. Às vezes é moral. Raramente se anuncia enquanto ocorre. As elites despertam dentro de uma narrativa confortável e letal: o sistema é estável, o círculo é competente, as perturbações são externas. Uma vez que uma classe dominante passa a se ver como separada, a responsabilização torna-se opcional. A reputação dentro do círculo supera a legitimidade fora dele. O mapa moral encolhe. A corrupção começa a parecer administração normal.

A panela de pressão

Quando classes dominantes se afastam demais, o ressentimento se acumula. Instituições absorvem a tensão por um tempo. Então, de repente, deixam de absorver.

O momento da Revolução Francesa importa mais do que seus slogans. Reformas foram possíveis por décadas antes de 1789 — reestruturação fiscal, concessões e modernização tributária foram discutidas, mas travadas pela relutância das elites em abrir mão de privilégios. Quando a mudança chegou, foi vingança, não reforma. A guilhotina implacável de Maximilien Robespierre foi pressão convertida em máquina.

O arco de 1917 na Rússia refletiu isso: agitação visível, reformas propostas adiadas ou diluídas. O colapso produziu não um ajuste liberal, mas uma máquina de matar. Milhões morreram porque a mudança incremental foi adiada até que a ruptura radical parecesse o único caminho crível.

Em ambos os casos, gerações posteriores perguntaram: isso poderia ter sido evitado? Não eliminando as elites, mas assumindo responsabilidade mais cedo, exercendo contenção e garantindo responsabilização. Quando a reforma chega cedo, sociedades se dobram. Quando chega tarde, elas se quebram. Correção tardia produz extremismo, não equilíbrio. Consome sistemas indiscriminadamente. Pessoas comuns — não apenas os arquitetos da decadência — ficam na zona de impacto.

Ainda assim, a história também registra quase-acidentes. A Grã-Bretanha do século XIX enfrentou agitação industrial, pobreza e exclusão que poderiam ter provocado uma ruptura ao estilo francês. Reformas graduais e contestadas — ampliação da representação, melhorias trabalhistas — renegociaram o contrato social e evitaram o colapso. A Europa Ocidental do pós-1945, abalada por duas guerras quase suicidas, construiu sistemas e mecanismos de controle não por caridade, mas por autopreservação.

O isolamento moderno das elites parece diferente — sem a pompa de Versalhes, mas com deriva institucional. Mudanças de políticas durante a pandemia criaram percepções de regras móveis e dissenso descartado. A globalização gerou riqueza no topo enquanto esvaziava comunidades industriais — vivenciado como abandono.

Conclusão

Quando cidadãos concluem que as elites lucram enquanto outros absorvem riscos, a reciprocidade se desgasta. O contrato social não se repara sozinho.

Elites são inevitáveis — e talvez desejáveis — nas civilizações. A questão é se elas se lembram de sua função. Poder sem obrigação corrói legitimidade; poder com obrigação a sustenta. Responsabilização exige confrontar irregularidades — sem ciclos de vingança. Sem responsabilização, a confiança morre. Sem perdão (ou ao menos contenção), a política torna-se guerra civil permanente.

O alerta da história é brutal, e sua instrução simples: quando elites permanecem enraizadas, a correção é pacífica. Quando se desconectam, a correção pode se tornar violenta. A escolha aparece em pequenas decisões — transparência, contenção, humildade, responsabilidade. Essas decisões podem determinar se sociedades se dobram ou se quebram.

Os arquivos Epstein são um espelho. Eles forçam a pergunta inevitável de cada época: aqueles mais próximos do poder tratarão a proximidade como privilégio — ou como dever?

As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente as opiniões do The Epoch Times.


Keep Reading