Boa noite! Nesta segunda-feira, 05 de janeiro, trazemos para você:

  • Lula telefonou para presidente interina da Venezuela no sábado.

  • María Corina Machado quer voltar “o mais rápido possível”

  • Groenlândia afirma que não pode ser comparada à Venezuela

  • China pode declarar guerra caso proposta de lei avance em Taiwan

  • O regime iraniano perdeu o controle: inflação, repressão e o colapso da autoridade em Teerã

  • Nem individualismo frio e muito menos o coletivismo socialista 

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Brasil/Venezuela Conversa não divulgada

O presidente Lula telefonou no sábado para Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente a Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro. O conteúdo da conversa não foi divulgado. As Forças Armadas venezuelanas reconheceram Delcy como presidente interina no domingo. 

Ela escreveu a Donald Trump pedindo uma relação respeitosa, sem ingerência, enquanto Washington exige ressarcimento por medidas anteriores que prejudicaram investidores americanos após a PDVSA ser estatizada.

Maduro foi levado a Nova Iorque e passou por audiência de custódia. As acusações citadas incluem corrupção e narcotráfico.

 Venezuela ─ María Corina

A líder oposicionista María Corina Machado disse hoje que quer voltar ao país “o mais rápido possível”, depois da captura de Nicolás Maduro pelos EUA no fim de semana.

Ela elogiou Donald Trump e afirmou que seu movimento está pronto para vencer uma eleição livre, dizendo que a oposição já triunfou em 2024 “sob fraude” e que, com voto justo, passaria de 90%.

Trump disse à NBC que é irreal realizar uma nova eleição em 30 dias e que o país precisa se estabilizar antes. Mesmo com Maduro fora, aliados seguem no poder, e Washington sinaliza diálogo com Delcy Rodríguez.

Groenlândia/EUA Impasse

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, disse na segunda, em entrevista coletiva, que a ilha quer melhorar a relação com os Estados Unidos mas que não pode ser comparada à Venezuela.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, também se posicionou contra Trump dizendo que se os Estados Unidos tomassem a ilha, isso significaria o fim da OTAN.

A fala veio após Donald Trump voltar a defender que Washington “precisa” da Groenlândia por segurança nacional. Ele afirma que a área é estratégica e que navios russos e chineses circulam no entorno.

China/Taiwan ─ Ameaças

A China disse no domingo que pode declarar guerra se avançar, em Taiwan, uma proposta de mudar a lei que regula relações com a China.

A deputada taiwanesa Lin I-chin, do partido governista, sugeriu no sábado renomear a lei de 1992, mudando a expressão “Área Continental” para “República Popular da China” e tirar o trecho que fala de uma “reunificação nacional”.

O porta-voz chinês Chen Binhua disse que “independência de Taiwan” significa guerra e prometeu esmagar iniciativas separatistas. A disputa ocorre uma semana após exercícios militares chineses de dois dias ao redor da ilha.

EUA Vistos

Os Estados Unidos adicionaram mais sete países ao piloto de caução para vistos de turismo e negócio: Butão, Botsuana, República Centro-Africana, Guiné, Guiné-Bissau, Namíbia e Turcomenistão.

O depósito varia de US$ 5 mil a US$ 15 mil. Caso a pessoa saia dentro do limite de tempo, ela recebe de volta.

Com isso, são 13 países no total. O piloto começou em agosto e foi ampliado em outubro. Washington diz mirar locais com muita permanência ilegal.

Histórias e dramas reais de uma crise criada por narrativas ideológicas

Jovens corajosos rompem o silêncio, através de entrevistas e reconstituições, e trazem fatos e realidades sobre a transição de gênero possíveis apenas para quem viveu na própria pele essa situação. Cada uma de suas histórias é um relato poderoso de verdades não contadas.

  • Este é um documentário dramático que merece sua atenção e que está disponível na EpochTV Brasil, nossa plataforma de streaming.

Nem individualismo frio e muito menos o coletivismo socialista

Jeffrey A. Tucker ─ Autor, The Epoch Times

A Segunda Guerra Mundial havia terminado e a Guerra Fria começava. O público estava exausto de grandes embates ideológicos, e a ideia de os Estados Unidos se engajarem em outra cruzada global parecia improvável. Ainda assim, em 1948, Harry Truman alertava para a nova ameaça: a União Soviética.

Os republicanos resistiam. Esse sentimento foi expresso pelo senador Robert Taft em A Foreign Policy for Americans (1951), que defendia que os EUA deveriam se concentrar na reconstrução interna, não em campanhas globais.

Nesse mesmo período surgiu William F. Buckley Jr., recém-formado em Yale, cujo livro God and Man at Yale causou grande impacto e o consagraria como líder intelectual do conservadorismo americano. A obra denunciava dois vieses dominantes na universidade: na economia, a preferência por planejamento estatal e keynesianismo; na religião, a hostilidade aberta à fé, com pessoas religiosas tratadas como cidadãs de segunda classe.

Buckley escreveu sua frase mais famosa nesse contexto: “O duelo entre cristianismo e ateísmo é o mais importante do mundo. A luta entre individualismo e coletivismo é a mesma luta em outro nível.”

Essa linguagem moldaria o debate da Guerra Fria. Para Buckley, tratava-se de um confronto entre sistemas: um centrado nos direitos e ações individuais, outro que via a sociedade como uma massa a ser moldada pelo Estado. Ele se referia diretamente ao modelo soviético, que combinava economia centralizada e ateísmo oficial.

Embora não fosse o único a usar esse enquadramento, Buckley o popularizou à direita. A dicotomia individualismo versus coletivismo dominaria o discurso político por décadas.

Há motivos para sua atração. Apenas indivíduos pensam e agem. Apenas indivíduos possuem direitos legais. O planejamento central tende a tratar grupos como abstrações homogêneas — trabalhadores, ricos, pobres, mulheres, minorias — ignorando mentes individuais. Esse pensamento agregado pode ser perigoso.

Mas o individualismo filosófico estrito tem limites sérios. Todos nascemos em famílias, buscamos formá-las, pertencemos a comunidades, igrejas, associações, amizades e nações com tradições e aspirações. A liberdade não existe no vácuo; ela vive dentro da comunidade.

Esse limite aparece claramente em A Revolta de Atlas (1957), de Ayn Rand. O livro descreve uma sociedade de indivíduos autônomos, quase todos solteiros, sem filhos, sem pais idosos, sem pessoas vulneráveis, sem laços religiosos ou deveres familiares. O casamento surge como opressão; a criação de filhos sequer aparece. A omissão é deliberada: uma ética puramente individualista precisa fingir que boa parte da vida humana não existe.

Por isso, “individualismo” é um conceito insuficiente para explicar como a liberdade realmente funciona. Pode ter sido um slogan útil na Guerra Fria, mas não descreve o tipo de sociedade que sustenta a liberdade ao longo do tempo.

Recentemente, o prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, declarou rejeitar a “frieza do individualismo” em favor do “calor do coletivismo”. Isso reacendeu memes e críticas — justificadas — ao histórico do coletivismo. Mas o problema maior está na própria dicotomia.

A alternativa ao coletivismo não é um individualismo frio, e sim a complexa rede de arranjos sociais que acompanham a liberdade: indivíduos inseridos em comunidades, responsabilidades mútuas e instituições espontâneas. Alexis de Tocqueville já identificava isso como essência da experiência americana.

O sociólogo Robert Nisbet foi além ao alertar que o individualismo isolado enfraquece a sociedade diante do Estado. Sem instituições intermediárias — família, igreja, associações cívicas, escolas, comunidades locais — o poder tende a se concentrar. O resultado é alienação, insegurança e um Estado hipertrofiado.

“O indivíduo abstrato e autônomo não existe”, escreveu Nisbet. A verdadeira individualidade floresce dentro de relações sociais, não fora delas.

Não existe ator humano isolado. Cada indivíduo habita um oceano de tradições, costumes, expectativas sociais, leis e vínculos que tornam a liberdade possível.

Por isso, rejeitar o coletivismo não exige abraçar o individualismo atomizado. O que buscamos é comunidade — inclusive a nação — formada por indivíduos livres, mas enraizados em relações reais. Não há calor no coletivismo, mas tampouco há sustentação na solidão filosófica. A liberdade exige algo mais rico, humano e durável.

O regime iraniano perdeu o controle: inflação, repressão e o colapso da autoridade em Teerã

Manifestantes marcham no centro de Teerã, Irã, em 29 de dezembro de 2025. Agência de Notícias Fars via AP

O que começou como um protesto contra a disparada dos preços e o colapso da moeda iraniana rapidamente se transformou em algo muito maior: manifestações abertas contra o regime islâmico, com palavras de ordem pedindo sua queda — e, de forma cada vez mais audível, clamando pelo retorno do nome Pahlavi às ruas do Irã.

Em poucos dias, a crise econômica deixou de ser apenas o estopim. Tornou-se o catalisador de uma revolta política que já figura entre os episódios de instabilidade mais longos e persistentes enfrentados pelo regime nos últimos meses.

Segundo grupos de monitoramento de direitos humanos, ao menos 119 pessoas foram presas, enquanto pelo menos 16 manifestantes morreram e centenas ficaram feridos desde o início dos protestos, que já se espalharam por mais de 30 cidades em várias províncias do país.

A queda da moeda e o limite da sobrevivência

O gatilho imediato foi a implosão do rial iraniano. No fim de dezembro de 2025, o dólar saltou no mercado paralelo de menos de 1 milhão de riais para cerca de 1,45 milhão — uma desvalorização abrupta que acelerou a inflação, paralisou o comércio e tornou o custo de vida insustentável.

Aluguéis dispararam, bens básicos desapareceram das prateleiras e salários perderam valor quase da noite para o dia.

“No bazar, ninguém conseguia colocar preço de manhã sabendo quanto valeria à tarde.”

Relato de comerciantes em Teerã

O fechamento de lojas, greves espontâneas e protestos de rua passaram a se misturar. Estudantes, trabalhadores e pequenos empresários ocuparam espaços públicos, enquanto forças de segurança reagiram com gás lacrimogêneo, balas reais e prisões em massa, segundo vídeos e testemunhos compartilhados online.

À medida que a repressão avançava, as palavras de ordem mudaram.

“Não era mais sobre preços. Era sobre o regime.”

 Ativista ouvido pela HRANA

O governo tenta conter — e falha

Apesar da escalada política nas ruas, o governo insiste em tratar a crise como um problema econômico pontual. Autoridades substituíram figuras-chave da área financeira e anunciaram ajustes de política.

O presidente Masoud Pezeshkian nomeou Abdolnaser Hemmati para comandar o Banco Central — uma figura controversa, já removida anteriormente após acusações de má gestão cambial. Sua volta reacendeu disputas internas e críticas de parlamentares ligados à ala dura do regime.

Para analistas independentes, a manobra é cosmética.

“A ideia de que trocar o presidente do Banco Central resolve a crise é uma ilusão.”

Saeed Bashirtash, analista político

Segundo Bashirtash, o colapso vai além de política monetária.

“A República Islâmica é estruturalmente incompatível com o mundo moderno. Sua falência está enraizada na ideologia e na Constituição.”

Saeed Bashirtash

Ele afirma que a população já ultrapassou o ponto da esperança em reformas internas.

“Mesmo que Pezeshkian quisesse reformar, o sistema não permitiria.”

Bashirtash

O choque geopolítico que quebrou a aura do regime

Analistas conectam a crise econômica a uma sucessão de golpes estratégicos sofridos por Teerã nos últimos meses. Para Arya Kangarloo, comentarista político, a guerra de 12 dias com Israel, em junho, foi um divisor de águas.

“Ali, o regime perdeu seus dois pilares centrais.”

Arya Kangarloo, comentarista político

Durante décadas, a República Islâmica sustentou sua projeção regional em dois eixos: o programa nuclear e uma rede de forças por procuração — Hezbollah, Hamas, milícias no Iraque, Houthis no Iêmen e o regime de Assad na Síria.

Segundo Kangarloo, o enfraquecimento sistemático dessas estruturas, somado a ataques diretos dentro do território iraniano e a bombardeios americanos contra instalações nucleares, destruiu a imagem de invulnerabilidade do regime.

“A aura de poder regional ruiu.”

Arya Kangarloo

A pressão europeia para reativar o mecanismo de “snapback” — que reimporia sanções internacionais — agravou ainda mais o pânico nos mercados.

“Quando o rial perde quase 8% em um único dia, o comércio simplesmente para.”

Arya Kangarloo

O bazar, historicamente um termômetro da estabilidade política, atingiu seu limite.

Das contas ao grito político

Com o prolongamento dos protestos, os slogans deixaram claro que o alvo não era mais a inflação.

“Morte ao ditador”
“Seyyed Ali cairá este ano”

As palavras ecoavam diretamente contra o líder supremo Ali Khamenei.

Ao mesmo tempo, um elemento inesperado ressurgiu com força: o passado pré-revolucionário. Em diversas cidades, manifestantes passaram a entoar frases como:

“Esta é a batalha final, Pahlavi voltará.”
“Reza Shah, que Deus abençoe sua alma.”

O retorno do nome Pahlavi

Esses gritos trouxeram novamente ao centro do debate o príncipe herdeiro no exílio, Reza Pahlavi.

Nascido em Teerã em 1960, filho do último xá, ele deixou o país ainda jovem, pouco antes da Revolução Islâmica de 1979. Formado nos Estados Unidos, vive há décadas perto de Washington.

Ao longo dos anos, Pahlavi buscou se afastar da imagem de restaurador da monarquia e se apresentar como defensor de uma transição democrática e secular.

“Meu papel não é governar, mas ajudar o Irã a atravessar a transição.”

Reza Pahlavi, em declarações públicas anteriores

Ele defende um referendo nacional para que os próprios iranianos decidam o futuro sistema político, com seu papel limitado a um período de transição.

Nos últimos anos, lançou o Iran Prosperity Project, um plano voltado à estabilização econômica pós-regime, com foco em mercado, combate à corrupção, proteção da propriedade privada e reintegração ao sistema financeiro global.

A herança ambígua da monarquia

O retorno simbólico dos Pahlavi reacende debates antigos. O Irã sob o xá viveu modernização acelerada, crescimento econômico, ampliação de direitos para mulheres e forte integração ao Ocidente.

Mas também enfrentou acusações de repressão política, censura e abusos cometidos pelos serviços de segurança — elementos que alimentaram a narrativa revolucionária de 1979.

Após a revolução, antigos aliados marxistas do movimento islâmico foram rapidamente perseguidos, enquanto o país mergulhava em um sistema teocrático que hoje enfrenta sua maior crise de legitimidade.

Pressão externa e o efeito Maduro

O cenário se tornou ainda mais volátil após o presidente Donald Trump alertar publicamente que qualquer escalada no uso de força letal contra manifestantes provocaria uma resposta americana.

“Se começarem a matar pessoas como no passado, vão ser atingidos com força.”

Donald Trump

O aviso ganhou peso adicional dias após a captura do venezuelano Nicolás Maduro — aliado estratégico de Teerã — por forças americanas.

O regime iraniano reagiu com indignação, chamando a ação de violação da soberania venezuelana, enquanto Khamenei endureceu o discurso interno.

“Conversar com manifestantes é possível. Com desordeiros, não.”

Ali Khamenei

A polícia anunciou a prisão de líderes de protesto e ativistas online, enquanto confrontos intensos foram registrados no oeste do país, em Teerã e no Baluchistão.

Em resumo:

O que começou como um protesto contra a inflação se transformou em um desafio direto à própria existência da República Islâmica. A combinação de colapso econômico, humilhações estratégicas, repressão violenta e ressurgimento de símbolos alternativos de poder criou uma tempestade perfeita.

Aos olhos de muitos iranianos, o regime parece incapaz de reformar, recuar ou reconciliar.

“Mesmo que quisesse mudar, o sistema não deixa.”
Saeed Bashirtash.

Entre o grito por pão e o clamor por liberdade, o Irã parece ter entrado em uma fase decisiva — em que o medo já não é suficiente para conter uma sociedade que sente não ter mais nada a perder.

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