Jeffrey Epstein (C) comparece ao tribunal em West Palm Beach, Flórida, em 30 de julho de 2008. Uma Sanghvi/Palm Beach Post via AP

Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

Por anos, a conversa pública sobre Jeffrey Epstein foi reduzida a uma única e horrorizante dimensão: crimes sexuais. Esses crimes foram reais, brutais e imperdoáveis. As mulheres e meninas que ele explorou — muitas vezes coagidas, drogadas e manipuladas — merecem justiça, dignidade e responsabilização duradoura. Nada nesta discussão deve jamais minimizar o sofrimento delas.

Mas, para entender quem Epstein realmente foi e por que seu caso continua a inquietar instituições ao redor do mundo, é preciso encarar uma verdade maior e mais desconfortável: o sexo não era o centro de seu poder. Era um subproduto.

Epstein operava como um corretor global de influência. Ele não era apenas um predador rico escondido atrás do dinheiro; era um facilitador, alguém que negociava acesso, alavancagem, sigilo e isenções. Seu valor para pessoas poderosas não estava enraizado apenas no prazer, mas no que ele podia destravar: tratamentos fiscais favoráveis, pontos cegos regulatórios, estruturas financeiras offshore, blindagem jurídica e proximidade com tomadores de decisão que moldam leis e mercados.

Ele circulava com facilidade entre financistas, políticos, membros da realeza, acadêmicos, cientistas, figuras ligadas à inteligência e elites corporativas. Esse acesso não era acidental. Epstein cultivou uma imagem de indispensabilidade como conselheiro informal em política tributária, fluxos cambiais e engenharia financeira. Com ou sem credenciais formais, posicionava-se como alguém que entendia como o poder realmente funciona — e como dobrá-lo silenciosamente.

É por isso que seu mundo era tão cuidadosamente protegido. O ecossistema de Epstein funcionava como um clube privado — exclusivo, extravagante e isolado de consequências. A entrada sinalizava status. Também carregava risco. O mesmo sigilo que atraía figuras poderosas também as prendia umas às outras. A exposição mútua criava silêncio mútuo. Nesse ambiente, a responsabilização tornava-se negociável, e o Estado de Direito era tratado como algo flexível.

O sexo, nesse sistema, cumpria múltiplas funções. Satisfazia alguns. Comprometia outros. Criava alavancagem. Borrava fronteiras morais e garantia discrição. Nunca foi aleatório. Estava entrelaçado a uma arquitetura mais ampla de controle, que recompensava a lealdade e punia a dissidência, muitas vezes sem que uma palavra precisasse ser dita.

Essa arquitetura atraiu gananciosos, ambiciosos, imprudentes e vulneráveis em igual medida. Alguns buscavam vantagem financeira. Outros buscavam proteção. Outros ainda queriam proximidade com o poder sem o escrutínio que normalmente o acompanha. Epstein oferecia um atalho — um que contornava a transparência e a substituía por uma confiança baseada em segredos compartilhados.

É por isso que focar apenas na dimensão sexual dos crimes de Epstein, embora emocionalmente compreensível, acaba por obscurecer a verdade completa. As pessoas não pagavam simplesmente por mulheres. Pagavam pelo acesso ao próprio Epstein e às portas que ele afirmava poder abrir. Pagavam por influência sem impressões digitais, resultados sem responsabilização e proteção contra consequências que outros enfrentariam.

A pergunta mais perturbadora não é por que Epstein abusou do poder, mas por que tantas instituições falharam ou escolheram não agir apesar de alertas, evidências e padrões que eram visíveis muito antes de sua prisão. Sua longevidade não foi resultado apenas da astúcia de um homem. Foi produto de um sistema que se protegeu.

A justiça, portanto, não pode parar em um único vilão. Epstein não operava no vácuo. Sua influência exigia clientes, beneficiários, facilitadores e protetores — alguns ativos, alguns passivos, muitos silenciosos. Enfrentar apenas os crimes sem examinar a rede que os sustentou é garantir a repetição.

Isso não se trata de raça, política ou ideologia. Trata-se da lei, da ética e da integridade de instituições que afirmam servir ao interesse público. Uma sociedade que permite que riqueza e proximidade ao poder se sobreponham à responsabilização convida à corrupção em todos os níveis.

O caso Epstein persiste porque expõe uma falha mais profunda: um mundo em que o poder se blinda, em que regras são aplicadas de forma seletiva e em que os prejudicados geralmente são os menos capazes de exigir justiça.

Se levamos a responsabilização a sério, precisamos estar dispostos a olhar além do escândalo e em direção à estrutura, além dos crimes de um homem e em direção ao sistema que os tornou possíveis. Qualquer coisa menos do que isso não é verdade. É evasão.

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