(Foto: beton studio/Via: Shutterstock)
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.
Os costumes e a etiqueta social estão claramente em declínio — e nada evidencia isso mais do que o aumento de casos de pessoas que somem sem explicação. Antes visto como um ato de covardia, esse comportamento acabou sendo normalizado pela tecnologia e pelas mudanças nas normas sociais.
As redes sociais têm grande parte da culpa. Elas incentivam o individualismo em vez do senso de comunidade e corroem a cortesia. Outros fatores também contribuem: criação deficiente, isolamento durante a pandemia de COVID, exposição constante à grosseria de políticos e influenciadores e um crescente senso de direito. Juntos, eles alimentaram essa regressão.
A lista de queixas sobre a queda das boas maneiras é longa: as pessoas já não dizem mais “por favor” nem “obrigado”. Falam ao celular no viva-voz em locais públicos, levam cachorros para dentro de supermercados, deixam carrinhos de compras espalhados pelos estacionamentos, interrompem conversas e passam o tempo rolando as redes sociais em vez de prestar atenção em quem está à sua frente.
Mas sumir sem explicação se destaca como a forma mais perturbadora dessa regressão social — especialmente no ambiente de trabalho.
Hoje, esse comportamento é comum, principalmente entre Millennials e integrantes da Geração Z. Ele acontece quando alguém corta a comunicação sem dar explicações, geralmente para evitar um confronto. A mensagem silenciosa é simples: “Me deixe em paz. Não quero continuar com isso.”
Antes visto como um gesto grosseiro e covarde, sumir sem explicação se tornou uma espécie de zona de conforto. Os mais jovens, muitas vezes ansiosos diante de interações presenciais, usam a segurança das telas para evitar situações desconfortáveis. A tecnologia distorceu nosso senso moral, alimentando uma atitude de “eu, eu mesmo e mais ninguém”, que coloca o conforto pessoal acima do encerramento e da cortesia.
Em vez de buscar autoconfiança, aprimorar habilidades sociais ou lidar com a própria ansiedade, a nova expectativa parece ser: “O mundo é que precisa se adaptar aos meus problemas.”
Sumir sem explicação permite que as pessoas fujam de seus próprios dilemas, transferindo a responsabilidade para os outros.
Essa tendência faz parte de uma erosão mais ampla da civilidade. No início dos anos 2000, a internet e as redes sociais começaram a sequestrar nossa atenção. Objetivos antes considerados nobres — como contribuir para a comunidade, exercer responsabilidade cívica e manter boas maneiras — se transformaram em imperativos morais definidos por política e identidade. Em vez de buscar pontos em comum, somos incentivados a insistir em antigas mágoas.
O resultado é uma Era da Ofensa. Expressar-se hoje exige pisar em ovos para não ferir a sensibilidade de alguém.
Muitos influenciadores incentivam estabelecer limites e cortar pessoas “tóxicas”. Limites podem ser saudáveis, mas, quando tratados como regras absolutas, acabam enfraquecendo laços familiares, amizades, relações de trabalho e conexões sociais mais amplas.
A verdade é simples: não se pode controlar o comportamento dos outros. Civilidade, empatia e profissionalismo não podem ser impostos por lei. No Canadá, a Carta de Direitos e Liberdades protege a liberdade de expressão — mesmo quando essa expressão se manifesta por meio do silêncio ou da grosseria.
Dois pontos valem ser lembrados sobre sumir sem explicação: você não pode controlar se a outra pessoa vai fazer isso; e não tem nenhum direito constitucional de ser contatado por alguém.
A vida digital torna esse comportamento fácil. Em segundos, podemos passar de totalmente acessíveis a completamente silenciosos, sem qualquer consequência. O sentimento de direito cega as pessoas para o fato de que esse tipo de atitude dói justamente por despertar um desejo humano fundamental: o de pertencer e ser amado.
É por isso que quem busca emprego costuma reclamar mais alto desse tipo de situação. Uma pesquisa de 2024 da plataforma de recrutamento Greenhouse mostrou que 61% dos candidatos disseram ter sido ignorados após uma entrevista. Embora o levantamento tenha caráter internacional, candidatos canadenses relatam a mesma frustração. Do outro lado, uma pesquisa de 2023 do Indeed apontou que 37% dos candidatos no Canadá admitiram ter feito o mesmo com empregadores — muitas vezes faltando a entrevistas sem aviso prévio.
Sumir sem explicação é preguiçoso e indelicado? Sem dúvida. Mas equiparar isso a maus-tratos é um exagero. Num mundo cheio de atrocidades reais, esse é um deslize menor. Como lembra a Oração da Serenidade: aceite o que não pode mudar, mude o que puder — e saiba distinguir uma coisa da outra.
Na essência, sumir sem explicação tem a ver com controle. Ao desaparecer, a pessoa retira do outro a chance de influenciar sua decisão. Uma conversa poderia gerar acusações, drama — ou até problemas legais, no caso de um retorno de entrevista de emprego. Para quem some, o silêncio funciona como um escudo.
Alguns argumentam que esse comportamento prejudica reputações. Mas alguma empresa já foi seriamente afetada por ignorar candidatos? Alguém já demonstrou ter sofrido perdas financeiras por causa disso? Você conhece alguém que tenha má fama apenas por sumir sem explicação?
Em uma sociedade obcecada por conveniência e descartabilidade, não é surpresa que essa mentalidade tenha se infiltrado também nos relacionamentos. Sumir sem explicação não representa progresso, mas retrocesso. É a forma mais fácil — e com quase nenhuma consequência — de dizer: “Terminei com você.”
As opiniões expressas neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times
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