Garrafas de leite cru em uma loja em Temecula, Califórnia, em 8 de maio de 2024. (Foto de JoNel Aleccia/AP)
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.
No ano passado, por volta do Dia de Ação de Graças, realizei uma ação que poderia causar surpresa no mundo atual: passei várias semanas consumindo exclusivamente leite cru. Não estava seguindo uma tendência nem realizando um experimento alimentar. Tudo começou com uma simples pergunta que não saía da minha cabeça.
Eu estava lendo sobre as bifidobactérias — bactérias intestinais benéficas encontradas naturalmente em abundância em bebês amamentados. O leite humano é projetado para nutrir tanto o bebê quanto os micróbios que ajudam a construir a base imunológica e metabólica da criança. Essa parceria biológica me fez pensar: se o leite em sua forma não processada é fundamental para os menores e mais vulneráveis entre nós, o que significaria para os adultos retornarem ao leite em seu estado integral e vivo?
Essa pergunta me levou a uma jornada histórica — muito mais surpreendente do que qualquer coisa que eu tenha experimentado fisicamente. A parte mais fascinante não foi meu jejum de leite cru, mas descobrir que a ideia não era nova. Na verdade, ela já foi tão convencional que teve destaque na prática médica americana convencional.
Por fim, minha curiosidade me levou a passar 18 dias bebendo apenas leite cru em novembro e, depois, 46 dias durante a Quaresma. Consumi cerca de 3,8 litros por dia. O que aconteceu comigo é simplesmente minha experiência pessoal, não uma sugestão para outras pessoas. Mais impressionante do que as mudanças físicas foi a constatação de que essa prática já havia sido amplamente conhecida, discutida abertamente e documentada clinicamente.
Muito antes de a Clínica Mayo se tornar a instituição médica de renome mundial que é hoje, ela começou como um local onde nutrição, descanso, luz solar e ar fresco eram considerados componentes legítimos dos cuidados médicos. Essa abordagem refletia a filosofia médica predominante da época. Um médico associado à Mayo, Dr. J.R. Crewe, tornou-se conhecido por algo que chamou de “cura do leite”. Ele descreveu um tratamento no qual os pacientes consumiam exclusivamente leite cru — não pasteurizado, não homogeneizado e, idealmente, fresco de vacas alimentadas com pasto. Isso não era algo marginal. Estava alinhado com o pensamento de médicos respeitados da época, incluindo William Osler. (Para ser claro, hoje, a Clínica Mayo avisa que beber leite cru pode levar a infecções e que os produtos lácteos devem ser pasteurizados.)
Crewe não foi o primeiro a usar esse método. No final do século XIX, médicos como Silas Weir Mitchell e James Tyson empregaram protocolos semelhantes. Na época, o leite cru era considerado um alimento completo, às vezes descrito metaforicamente como “sangue branco” devido às suas enzimas, proteínas, bactérias benéficas, gorduras, minerais e outros compostos naturais.
Ao longo de quase quatro décadas, Crewe tratou milhares de pacientes e publicou suas observações. Suas descrições refletiam o entendimento médico de sua época. O que se destaca agora não é nenhuma afirmação em particular, mas a escala e a normalidade da terapia. O leite cru já foi uma ferramenta padrão no repertório dos médicos, tão comum que seu desaparecimento das conversas modernas parece quase intrigante.
Para entender por que ele desapareceu, é necessário examinar tanto a cultura quanto a ciência. No início do século XX, leis de pasteurização foram introduzidas para resolver problemas decorrentes da industrialização do abastecimento de leite — laticínios urbanos, animais superlotados e saneamento precário. Essas leis se destinavam a operações em grande escala, não a pequenas fazendas baseadas em pastagens. À medida que a produção de alimentos mudou para modelos industriais e a medicina passou a adotar abordagens farmacêuticas, o leite cru simplesmente desapareceu do mainstream. Ele não foi debatido até ser extinto — ele desapareceu à medida que todo o sistema ao seu redor mudou.
Hoje, a maioria das advertências sobre o leite cru diz respeito aos riscos da cadeia de abastecimento industrial moderna, não ao tipo de leite usado pelos médicos da época. Essa distinção raramente é discutida — e sua ausência do discurso público é parte do motivo pelo qual vale a pena revisitar essa história.
Vivemos agora em uma época em que as doenças crônicas são generalizadas, as condições autoimunes afetam milhões de pessoas e os alimentos altamente processados compõem a maior parte da dieta média. Nesse contexto, parece quase surreal olhar para trás, um século atrás, e ver o leite cru — integral, não processado e proveniente diretamente de animais alimentados com pasto — tratado como um alimento fundamental na prática médica.
O leite cru existe na natureza com um único propósito: construir e sustentar a vida. Se isso é relevante para os adultos de hoje é uma questão de crença pessoal, contexto e escolha. Só posso descrever a sensação que tive ao bebê-lo — uma sensação de que não estava fazendo algo experimental, mas sim retornando a algo profundamente familiar.
A famosa frase de Hipócrates “Que a comida seja seu remédio e o remédio seja sua comida” é frequentemente repetida sem muita reflexão.
Mas, em seu contexto original, não era metafórica. Ela reconhecia que a comida carrega informações e estrutura, não apenas calorias.
Talvez o leite cru não seja um milagre. Talvez não seja a resposta para todas as doenças modernas. Mas essa não é a questão. A questão é que nossos antepassados trabalhavam com a comida de maneiras que raramente consideramos hoje — aplicando observações e conhecimentos que foram amplamente esquecidos. Revisitar essa história não significa prescrever uma solução; significa expandir nossa compreensão da relação entre os seres humanos, a alimentação e o mundo natural.
Às vezes, redescobrir não significa encontrar algo novo. Significa lembrar algo antigo — algo comum, simples e enraizado na forma como os seres humanos outrora compreendiam o mundo e seu lugar nele.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times.





