Um homem chinês fica sozinho para bloquear uma fila de tanques que se dirigia para o leste na Avenida Cangan, na Praça da Paz Celestial, em Pequim, em junho de 1989. (Jeff Widener/AP Photo)

Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

No próximo mês, comemora-se o 37º aniversário da revolta da Praça da Paz Celestial e do massacre que se seguiu. O evento costuma ser reduzido a uma única imagem: um manifestante solitário diante dos tanques em Pequim.

A imagem perdura. A compreensão, não.

Tiananmen não se limitou a uma praça, nem a violência que se seguiu. Os protestos se espalharam por toda a China, e a resposta do regime se estendeu muito além de Pequim. O que ficou na memória como um momento foi, na realidade, um confronto nacional entre um partido governante e seu próprio povo.

Esse desfecho não deveria ter surpreendido ninguém familiarizado com a história do PCCh.

Desde sua consolidação inicial do poder, o Partido fundiu ideologia com coerção. Mao Zedong enunciou o princípio de governo de forma clara: o poder político vem do cano de uma arma. Esse princípio não era retórico. Ele definiu o regime. Campanhas de reforma agrária, coletivização, o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural demonstraram uma disposição consistente de usar a força em grande escala para manter o controle. Dezenas de milhões morreram de fome após o Grande Salto Adiante. A Revolução Cultural destruiu instituições, desestruturou a ordem social e desencadeou violência em toda uma geração.

A violência não foi uma aberração. Foi um método.

O PCCh não é simplesmente um sistema autoritário. É uma ditadura comunista totalitária — que busca controlar não apenas o comportamento político, mas o pensamento, a memória e a própria verdade histórica.

Tiananmen não se afastou desse sistema. Ele o confirmou.

Em 1989, as reformas econômicas haviam alterado elementos da sociedade chinesa, mas a estrutura da autoridade política permaneceu intacta. Quando os protestos se espalharam pelo país, o PCCh não os interpretou como expressão cívica. Tratou-os como um desafio direto à sua autoridade. A lei marcial foi declarada. O Exército Popular de Libertação foi mobilizado. Seguiu-se o uso de força letal.

As mortes em Pequim são bem conhecidas. As mortes fora de Pequim, não. Em cidades como Chengdu, relatos confiáveis indicaram que dezenas, e possivelmente centenas, foram mortas nos dias seguintes à repressão inicial. Os protestos se espalharam para outros grandes centros urbanos, embora o regime tenha garantido que a extensão total da violência nunca fosse totalmente conhecida. Os números oficiais estimavam centenas de mortos. Estimativas independentes variam na casa dos milhares, com algumas alegações mais elevadas indo além dessa faixa.

Um condutor de riquixá pedala furiosamente, retirando estudantes feridos da Praça da Paz Celestial em Pequim, em 4 de junho de 1989. (64memo.com)

As estimativas históricas e diplomáticas mais sérias situam o número provável de mortos em uma faixa de aproximadamente 1.000 a 3.000. Ao mesmo tempo, algumas alegações baseadas em informações de inteligência e de dissidentes sugeriram números próximos ou superiores a 5.000. A ausência de um número definitivo não é acidental — ela reflete a estrutura do próprio regime.

A incerteza não é uma falha no registro de dados; é o produto do controle.

O PCCh não se limitou a reprimir a dissidência. Ele suprimiu a memória da dissidência. O que resta é um símbolo no lugar de um relato completo, uma imagem que obscurece tanto quanto revela.

Como George Orwell advertiu: “Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado".

Após a repressão inicial, o regime não continuou com os assassinatos em massa em grande escala. Em vez disso, passou a adotar uma repressão direcionada: prisões, detenções, execuções seletivas e silenciamento de longo prazo. Tiananmen foi um ato concentrado de violência seguido por uma amnésia histórica imposta.

Esse mesmo padrão é visível hoje no Irã — em uma escala que exige atenção.

Desde o final de 2025, os protestos se espalharam por todo o Irã, atingindo dezenas de cidades e províncias. Não se tratou de distúrbios isolados. Representaram uma manifestação nacional de oposição ao próprio regime. Estudantes, trabalhadores e cidadãos comuns saíram às ruas em números que deixaram clara a amplitude do descontentamento.

A resposta do regime iraniano seguiu uma lógica familiar.

As forças de segurança, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica e a milícia Basij, agiram rapidamente para reprimir as manifestações. Munição real foi usada. Atiradores de elite foram mobilizados. Seguiram-se prisões em massa. Bloqueios da internet foram impostos para impedir a comunicação e a documentação. Hospitais relataram ter atendido um grande número de feridos a tiros, enquanto a verificação independente se tornou cada vez mais difícil à medida que o Estado reforçava o controle sobre a informação.

O número de mortos é contestado. A escala, não.

Relatórios de direitos humanos confirmaram que milhares morreram na repressão. Os números verificados chegam a vários milhares, com muitos outros casos sob investigação. Outras estimativas, extraídas de fontes médicas e relatos internos, apontam para um total significativamente maior, em alguns casos chegando a dezenas de milhares. Esses números continuam difíceis de confirmar em condições deliberadamente criadas para impedir a confirmação.

O regime iraniano garantiu essa incerteza.

Corpos foram removidos dos hospitais. Famílias foram pressionadas a permanecer em silêncio. Relatos descrevem necrotérios sobrecarregados, enterros em massa e esforços sistemáticos para ocultar a magnitude do número de mortos. Em alguns casos, famílias teriam sido forçadas a pagar pelas balas usadas nas execuções.

Essas práticas não são acidentais. São métodos de controle concebidos para estender a repressão além do próprio ato de matar.

As mortes não se limitaram às ruas.

As execuções se seguiram como uma continuação da repressão. Indivíduos acusados de participar de protestos foram submetidos a processos judiciais opacos e condenados à morte. O judiciário não funciona como uma instituição independente, mas como uma extensão da autoridade do regime.

Crianças estão entre as vítimas. Isso não é controle de multidões. É preservação do regime.

O regime iraniano não é um Estado autoritário convencional. É uma ditadura teocrática autoritária — um sistema no qual a autoridade política se funde com a alegação de legitimidade religiosa do regime, e a dissidência é tratada não apenas como oposição política, mas como desvio moral e ideológico.

Manifestantes iranianos marcham em apoio à mudança de regime no Irã durante uma manifestação em Toronto, Canadá, em 14 de fevereiro de 2026. (Sammy Kogan/The Canadian Press)

Os dados disponíveis, embora incompletos, fornecem uma base para comparação.

Na China, em 1989, os números oficiais estimavam o número de mortos na casa das centenas. Estimativas independentes geralmente variaram entre cerca de 1.000 e 3.000, com algumas estimativas mais altas indo além desse intervalo. O número real nunca foi confirmado.

No Irã hoje, as mortes confirmadas já chegam a vários milhares. Estimativas adicionais — extraídas de relatórios médicos e relatos internos — apontam para um total significativamente maior, em alguns casos chegando a dezenas de milhares. No entanto, essas estimativas continuam difíceis de confirmar sob condições de controle estatal.

No mínimo, a repressão iraniana atinge a escala mais comumente associada à repressão de Tiananmen. Ela pode até ultrapassá-la.

A incerteza em ambos os casos não é uma limitação da análise. É uma característica dos próprios regimes.

Há, no entanto, uma diferença importante.

Na China, as mortes concentraram-se num período curto e violento, seguido de repressão.

No Irã, as mortes não terminaram com os protestos.

Elas continuaram por meio de execuções, detenções e violência dirigida pelo Estado, levadas a cabo após a repressão inicial.

Tiananmen foi um massacre seguido de silêncio.

O Irã é um massacre seguido de continuidade.

No entanto, a resposta global não seguiu o mesmo padrão.

Tiananmen tornou-se uma imagem marcante. Fixou-se na memória do mundo como um símbolo de resistência e repressão. O Irã não produziu nenhum momento singular como esse. Sua violência está dispersa pelas cidades, fragmentada nas reportagens e contestada em tempo real.

Um evento concentrado se torna um símbolo. Um evento disperso se torna uma estatística.

Há uma tendência persistente de tratar esses eventos como separados: a China como história, o Irã como atualidades. Essa distinção é enganosa.

Esses não são eventos isolados. São expressões do tipo de regime.

O Partido Comunista Chinês e o regime iraniano diferem em ideologia. Um está enraizado na doutrina marxista-leninista, o outro se baseia em uma estrutura teocrática revolucionária.

Como observou Sun Yat-sen: “A base de uma nação é seu povo”. Em ambos os casos, os regimes inverteram esse princípio — o Estado é preservado, mesmo que o povo deva ser sacrificado.

Ideologias diferentes. Justificativas diferentes.

A mesma lógica do mal e do poder.

Ambos são sistemas nos quais a autoridade máxima não é controlada. Ambos interpretam a dissidência como ilegítima. Ambos dependem da força para suprimir a oposição. Ambos controlam a informação que molda a narrativa que se segue.

Em tais sistemas, não há limites significativos ao poder.

Onde não há limites, a força torna-se inevitável.

A tradição política americana surgiu de uma premissa diferente — de que a autoridade é limitada, de que os direitos existem independentemente do Estado e de que os indivíduos possuem uma reivindicação moral que o poder deve reconhecer.

Onde essa premissa está ausente, o resultado é previsível.

A força substitui a legitimidade.

O poder substitui a responsabilidade.

A questão não é se tais regimes agirão dessa maneira. A história já respondeu a essa pergunta.

A questão é se estamos dispostos a reconhecer o padrão quando ele reaparecer — mesmo quando não houver uma única imagem definidora. Isso deve orientar nossa visão da situação atual no Irã.

Tiananmen não foi uma exceção.

Foi um precedente.

As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times.

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