
Alina Fernández Revuelta, filha do ex-líder cubano Fidel Castro, na Colômbia em 2022. Cortesia de Alina Fernández Revuelta/Ana Maria Gallón
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.
Alina Fernández Revuelta, filha do ex-líder cubano Fidel Castro, criticou duramente o regime comunista iniciado por seu pai em 1959, afirmando que Cuba já deveria ter passado por uma mudança de governo há muito tempo.
Ela fugiu de Havana em 1993, aos 37 anos, e se estabeleceu em Miami, levando uma vida modesta, semelhante à de outros exilados cubanos.
Nascida em 1956, Fernández cresceu em Havana pós-revolução como parte da elite revolucionária privilegiada. Ainda assim, desde jovem passou a compreender a realidade do comunismo e, mais tarde, tornou-se uma das críticas mais vocais do regime de seu pai, que descreveu como opressor.
“Para mim, já era hora de uma mudança de regime desde o fim dos anos 80”, disse Fernández em entrevista exclusiva ao The Epoch Times.
“Na época em que Fidel Castro morreu, todos nós achávamos que [o regime] tinha chegado ao fim, porque era um governo muito personalista e paternalista... narcisista. ... Mas sobreviveu.”
Fernández é filha de Castro com a socialite de Havana Natalia Revuelta, com quem ele teve um relacionamento na década de 1950 enquanto ambos eram casados com outras pessoas. Ela cresceu com a mãe e o padrasto e só descobriu que Castro era seu pai biológico aos 10 anos.
“Tornei-me dissidente, publicamente… no fim dos anos 80. Então eu tinha medo. Tinha medo pela minha filha, de que algo pudesse acontecer com ela”.
Ela disse que ainda se sente assombrada por memórias do passado e se refere a Castro pelo nome, e não como pai.
“Tornei-me dissidente, publicamente, no fim dos anos 80. Então eu tinha medo. Tinha medo pela minha filha, de que algo pudesse acontecer com ela”, afirmou.

Alina Fernández Revuelta com Fidel Castro, celebrando seu casamento com Yoyi Jimenez em 1973. Desde jovem, Fernández tomou consciência da realidade do comunismo e mais tarde se tornou uma das críticas mais veementes do regime de seu pai. Foto: Alina Fernández Revuelta
“Eu estava do lado dissidente, então isso era um fardo duplo para ela. Ela era adolescente, e estávamos no que chamamos na época de Período Especial.”
Por décadas, Cuba dependeu de ajuda externa, principalmente da União Soviética, que forneceu subsídios substanciais até seu colapso em 1991. O fim desse apoio levou a uma prolongada crise econômica em Cuba conhecida como “Período Especial”.
Para Fernández, esse período significou “anos de miséria total”, sem eletricidade, alimentos ou transporte público, além do fechamento de escolas.
“Algumas pessoas dizem que hoje está pior, mas nos anos 90 foi terrível, terrível”, disse.
Quando teve a oportunidade de escapar, Fernández decidiu partir primeiro, deixando a filha para trás por não ter alternativa. Ela fugiu usando o passaporte de uma turista espanhola que concordou em ajudá-la.
Primeiro viajou para a Espanha e depois recebeu asilo político nos Estados Unidos pela embaixada americana em Madri. Em 21 de dezembro de 1993, chegou a Atlanta.
Poucos dias depois, o reverendo Jesse Jackson visitou Cuba e obteve a autorização de Castro para a saída de sua neta, o que Fernández descreveu como uma “intervenção divina”. Logo depois, mãe e filha se reencontraram nos Estados Unidos.
Por que ela deixou Cuba
Por volta dos 9 ou 10 anos, Fernández começou a entender o que comunismo e revolução realmente significavam. Tudo começou com algo chamado “trabalho voluntário”.
“Fui até minha mãe e disse: ‘não quero ir para o trabalho voluntário’”, relembrou. “Ela disse: ‘não, você tem que ir’.”


(Acima e abaixo) O roteirista José Rivera e Alina Fernández. Após deixar Havana em 1993, aos 37 anos, Fernández tornou-se uma forte defensora da liberdade em seu país. Foto cedida por Alina Fernández Revuelta.
Sob o regime, cubanos — inclusive crianças — eram obrigados a participar de trabalho voluntário não remunerado para sustentar a economia estatal. A maior parte envolvia atividades agrícolas, especialmente a colheita de açúcar.
“Foi aí que descobri que, em Cuba, voluntário significava obrigatório”, disse.
Para ela, foi uma lição precoce sobre como a linguagem pode ser manipulada por regimes comunistas para servir ao sistema.
“Percebi muito cedo que estavam mentindo para mim”, afirmou.
Fernández soube pela mãe, por volta dos 10 anos, que Castro era seu pai biológico. Até então, acreditava que seu padrasto, o cardiologista Orlando Fernández Ferrer, era seu pai. Por causa das leis do país, manteve o sobrenome dele.
“Foi aí que descobri que, em Cuba, voluntário significava obrigatório. Percebi muito cedo que estavam mentindo para mim.”
Seu padrasto deixou o país com a irmã dela no início dos anos 60.
“Então eu tinha que escrever nos documentos escolares e oficiais que tinha traidores na família”, disse.
Ela permaneceu em Cuba com a mãe, mas a relação entre as duas era difícil.
Segundo Fernández, sua mãe foi uma das arquitetas originais da revolução.
“Ela esteve lá desde o início... desde a preparação da revolução”, disse.
“Ela era simpatizante e uma súdita extremamente fiel do rei”, afirmou, referindo-se à lealdade da mãe a Castro.

O líder cubano Fidel Castro (C) aparece logo após derrubar o ditador Fulgencio Batista durante o triunfo revolucionário em Cienfuegos, Cuba, em 4 de janeiro de 1959. Prensa Latina/AFP via Getty Images
A crise de Mariel, em 1980, marcou um ponto de virada. O chamado êxodo de Mariel foi uma saída em massa de cubanos após um impasse na embaixada do Peru em Havana, onde mais de 10 mil pessoas pediram asilo devido à crise econômica. Em resposta, Castro abriu o porto de Mariel.
Entre abril e outubro de 1980, cerca de 125 mil cubanos fugiram para os Estados Unidos.
O regime chamava os que partiam de “gusanos” (vermes) e traidores, além de organizar multidões para intimidá-los e atacá-los.
Presenciar isso fez Fernández questionar ainda mais o regime.
“As pessoas eram incentivadas a bater, gritar, humilhar e, em alguns casos, matar aqueles que queriam deixar o país”, disse. “Para mim, foi um ponto de ruptura muito duro ver que eram tratadas assim oficialmente. Isso me destruiu.”
Em 2014, Fernández voltou a Havana pela primeira vez em 21 anos, após obter permissão para visitar a mãe, que estava gravemente doente.
Desde então, não retornou à ilha, mas, como muitos cubano-americanos, espera voltar quando o regime cair.
Ela não mantém mais contato com familiares, incluindo o tio e ex-líder Raúl Castro, hoje com 94 anos.
“Uma das maiores tragédias de Cuba é que essa loucura dividiu famílias da forma mais dramática. Se você não pensava igual, virava inimigo”, disse. “É terrível. Sempre foi assim.”

Em maio de 1980, barcos transportam cubanos do porto de Mariel, em Cuba, para Miami. Durante o êxodo de Mariel, uma fuga em massa que se seguiu a um impasse na embaixada peruana em Havana, mais de 10.000 cubanos buscaram asilo devido à crise econômica. Archivo/AFP via Getty Images
O que vem a seguir
A Revolução Cubana começou em 1953 como uma insurreição armada que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista. Em 1º de janeiro de 1959, Fidel Castro assumiu o poder e rapidamente transformou Cuba em um país comunista.
Mais de uma dúzia de presidentes dos Estados Unidos tentaram influenciar, mudar ou derrubar o regime cubano desde então. Os EUA impuseram embargo econômico e sanções a partir de 1960, intensificados ao longo do tempo. Outras ações incluíram a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961, sob o presidente John F. Kennedy, a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos e restrições de viagem.
Nas últimas semanas, o presidente Donald Trump sugeriu que Cuba pode ser o próximo alvo, após forças americanas capturarem o ex-líder venezuelano Nicolás Maduro em Caracas em 3 de janeiro e iniciarem ataques contra o Irã em 28 de fevereiro.
“É um país fracassado, e eles serão os próximos”, disse Trump a jornalistas em 29 de março. “Em pouco tempo, vai colapsar, e estaremos lá para ajudar.”
Após a captura de Maduro, os envios de petróleo para Cuba cessaram, mergulhando a ilha em uma das piores crises econômicas em décadas.
Grandes protestos eclodiram, impulsionados por apagões frequentes, escassez severa de alimentos e acesso limitado a medicamentos.
Fernández, no entanto, avalia que mudanças significativas vindas de dentro de Cuba são improváveis no curto prazo. Segundo ela, bater panelas — protesto conhecido como cacerolazo — não será suficiente para derrubar o regime.
Ela explica que o sistema comunista permanece profundamente enraizado, com poder altamente centralizado e muitos dos líderes originais ainda em posições chave.
Após deixar Havana, Fernández tornou-se uma defensora ativa da liberdade em seu país. Em 1998, publicou seu livro de memórias, Castro’s Daughter: An Exile’s Memoir of Cuba. Ela afirma que enfrentou resistência ao seu trabalho nos Estados Unidos ao longo dos anos.
Recentemente, participou do documentário Revolution’s Daughter, que estreia em Miami no dia 10 de abril. Nos últimos anos, tem evitado aparições na mídia.
“Fiquei em silêncio por muitos, muitos anos”, disse. “Tive a sensação de que já tinha dito tudo o que precisava dizer.”

Roteirista José Rivera e Alina Fernández. Cortesia de Alina Fernández Revuelta





